quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Aquelas Mulheres 

God is the invention of failures. 
the only hell is where you are.” 
Bukowski 

Gosto de revisitar três ou quatro mulheres quando escrevo, 
Gosto de as misturar, usar aquela vez no cemitério com esta, 
Ou a boca cheia da outra no parque da feira em vez de no carro, 
Gosto de tornar o Verão num Inverno na serra, 
De emprestar as calças brancas de duas a uma terceira, 
Gosto de saborear o porto de uns lábios noutros lábios, 
Não sei porquê, nenhuma foi minha realmente, 
Nem tanto quanto as que esqueci o nome, como aquele cu grego, 
Na casa de banho a vir-se como nunca, palavras, 
Quem vai acreditar nos joelhos, ou a estudante meia sueca, 
Ou lá o que era com as meias de vidro rasgadas pelconsciência, 
Ou a colega com a roupa lavada do pai do filho futuro, ainda por encartar, 
Em cima da cama onde foderíamos contra todas as probabilidades por mil, 
É a primeira vez que as toco em versos, as outras, apesar de passar de uma década, 
Continuo a montar puzzles com aqueles olhos,  
As suas palavras, todas me pareceram ridículas como um espelho, 
O sabor e o cheiro de cada rata, tão diferente como uma noite de Novembro 
E uma de Agosto, estranhamente, nada disto me excita, 
Sinto uma tristeza fina, como um orgulho ridículo do melhor idiota da aldeia, 
Como o dono de algo que teve que ser vendido para pagar o vazio, 
Três ou quatro mulheres, aqueles corpos tão familiares como uma almofada velha, 
Agora donos de filhos, de maridos, de traições e sonhos perdidos, 
Nenhuma naqueles pedaços que espalho pelos poemas 
Em noites como esta, longe de todos os verões, todas as certezas desesperadas. 

16.11.2018 

Turku 

João Bosco da Silva
Futuro Presente 

Onde terá ficado o futuro que nos vendiam nas tardes de sábado, 
Que roubávamos em CDs virgens, criminosos a dobrar, 
Que líamos às escondidas em dias de trovoada, 
Com as pilhas roubadas a um relógio nunca certo, 
Aquele futuro nada parecido a este presente constante, 
Se algo se perdeu, foi saber como se pintam os joelhos de verde, 
Ou como deixar crescer a unhas para plantar inocência na sujidade, 
Naquelas tardes, ligados a uma fraca resolução, 
Sem qualquer vontade de sair e espalhar desilusões em vontades alheias, 
Tudo no seu devido lugar, preparados para levar um dia de cada vez, 
Até que o futuro chegue, luminoso, Novembro continua cinzento, 
Algum néon que anuncie, só mesmo lavagem de carros à mão, 
Ou um motel barato onde se enterram as unhas limpas 
Na sujidade escondida de alguém que nada no futuro, 
Continua-se a morrer com gripes, num mundo tão velho 
Como o cadáver das infâncias, continua-se a parir como se tivéssemos 
Alguma importância, é certo que as pedras nos sobreviverão, 
Pouco mais restará do nosso presente constante, 
Qual futuro, ninguém caberá nas distopias que andamos a semear. 

16.11.2018 

Turku 

João Bosco da Silva

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

A Todos Os Que Poderiam Ter Sido 

Enquanto nos queixamos desta hora que não passa e esperamos 
Que logo seja amanhã, chegamos ao demasiado tarde para tudo, 
Nunca as mãos parecem conseguir fazer nada com o que agarram, 
Tudo lhes parece estorvar a vontade e no fim acabam sempre vazias, 
Ou cheias de terra se a madeira ceder ao peso do que nos separará 
Do que fomos e os esquecimentos que semeamos em vida, 
Bater palmas e sete palmos de terra nos olhos, um nome e uma data, 
A vida isto e todos os sofrimentos que se apagam num suspiro, 
Todos os sonhos que se apagam numa linha, todo o tempo perdido, 
Investido ou em ingratidão ou em ilusão, amarelecemos, inchamos, 
Vamos caindo aos bocados, ainda ontem era sexta e caminhávamos 
Em direcção a casa, onde a lareira já estava acesa, a galinha ainda quente, 
Depenada, pronta para o jantar, o Natal a caminho, uma horita à escapada 
Para construir um império, a mão esquerda no bolso a direita sempre fria, 
Sábado se o musgo estiver seco uma volta pelo monte, 
Domingo amparar os queixos das velhas com a patina, 
Hoje vidas que se desfazem no teu maior esforço, embrulhadas em lençóis, 
Afogados por uma sede verde, tropeçando nos inúmeros azares que a vida proporciona, 
Se hoje fosse sexta diria, vive o mais devagar que possas, 
Não te habitues à pressa, ao barulho, conserva o vazio como um tesouro, 
Nada será mais tu que esse vazio puro e inocente, não te enchas,  
Não te satures e não te agarres a nenhuma certeza. 

08.11.2018 

Turku 

João Bosco da Silva