quinta-feira, 15 de novembro de 2018

S.R.T.H.M. Não Um Poema Sobre Cornos 

“E a minha vida prosseguiu, com os mesmos sobressaltos e a mesma sensação de provisório” 
Roberto Bolaño 

Nunca me habituarei a esta vida, cada novo dia, 
Sinto-me menos preparado para o amanhã 
E sei que é coisa que nunca chegará a existir, 
Deixo-me andar, mas custa-me quando vejo 
Os outros tão certos, tão confiantes, 
Como se o fim deles fosse outro que não a morte, 
Como se os amores não acabassem em tédio 
Ou num valente par de cornos de estimação, 
Também esses, invenção nossa, invejosos, 
De certos herbívoros, que procriam livres, 
Mais ainda, quanto maiores os cornos, mas isto, 
Não é um poema sobre cornos, 
Não é sequer é um poema, é uma noite solitária, 
Um copo de whisky vazio, a música de tempos, 
Não melhores, mas agora impossíveis, 
Nada melhor do que isso, daí fazermos de tudo, 
Para tornar a paz em algo impossível, 
Mas ninguém é culpado, ninguém foi ensinado, 
A primeira aula da manhã de segunda-feira 
Nunca foi, Introdução às Técnicas da Vida, 
Depois de Educação Física, nunca se aprendeu, 
Ciências da Amizade ou Sem Religião Também Há Moral, 
Aprendeu-se mais em Educação Visual 
Que nos Domingos de manhã, isto mais nos dias sem aulas, 
Depois, abelha num rosmaninho à porta do cemitério, 
E nisto a vida toda e a morte também, 
Depois de nada, pouco mais haverá de beleza, 
Além da tristeza em meia-dúzia quando sorte, 
Nunca se encontrará nada de novo, 
Seja numa rua cheia de estrelas apagadas, 
Como balões que se esvaziaram depois de cheios, 
Numa região que de tão familiar arde como Agostos 
Em casa, só os gatos parecem mostrar a verdade, 
É tudo o mesmo, às vezes ao sol, às vezes à sombra 
E ninguém gosta de verdade de chuva fria, 
Nunca me habituarei a esta vida em que cada sonho 
Uma derrota na companhia dos cabelos brancos. 

16.11.2018 

Turku 

João Bosco da Silva
Aquelas Mulheres 

God is the invention of failures. 
the only hell is where you are.” 
Bukowski 

Gosto de revisitar três ou quatro mulheres quando escrevo, 
Gosto de as misturar, usar aquela vez no cemitério com esta, 
Ou a boca cheia da outra no parque da feira em vez de no carro, 
Gosto de tornar o Verão num Inverno na serra, 
De emprestar as calças brancas de duas a uma terceira, 
Gosto de saborear o porto de uns lábios noutros lábios, 
Não sei porquê, nenhuma foi minha realmente, 
Nem tanto quanto as que esqueci o nome, como aquele cu grego, 
Na casa de banho a vir-se como nunca, palavras, 
Quem vai acreditar nos joelhos, ou a estudante meia sueca, 
Ou lá o que era com as meias de vidro rasgadas pelconsciência, 
Ou a colega com a roupa lavada do pai do filho futuro, ainda por encartar, 
Em cima da cama onde foderíamos contra todas as probabilidades por mil, 
É a primeira vez que as toco em versos, as outras, apesar de passar de uma década, 
Continuo a montar puzzles com aqueles olhos,  
As suas palavras, todas me pareceram ridículas como um espelho, 
O sabor e o cheiro de cada rata, tão diferente como uma noite de Novembro 
E uma de Agosto, estranhamente, nada disto me excita, 
Sinto uma tristeza fina, como um orgulho ridículo do melhor idiota da aldeia, 
Como o dono de algo que teve que ser vendido para pagar o vazio, 
Três ou quatro mulheres, aqueles corpos tão familiares como uma almofada velha, 
Agora donos de filhos, de maridos, de traições e sonhos perdidos, 
Nenhuma naqueles pedaços que espalho pelos poemas 
Em noites como esta, longe de todos os verões, todas as certezas desesperadas. 

16.11.2018 

Turku 

João Bosco da Silva