domingo, 27 de janeiro de 2019

Carta Perdida 

Lembras-te do tempo em que me encerrava na casa de banho 
A ler Bukowski trazido da biblioteca e a rabiscar poemas 
Sobre um amor que devia ter ficado a apodrecer no seu nojo, 
Enquanto tu dormias, os vizinhos fodiam, depois mijavam, 
Puxavam o autoclismo e enquanto ouvia a água a correr 
Pelos canos algures nas têmporas, acabava mais um poema de merda 
E tu orgulhavas-te de mim, se calhar por nunca me teres lido, 
Porque a língua uma distância palpável entre nós, 
Agora, dentro de ti cresce algo que nunca fui, 
Algo que nunca serei, não sei sequer se me arrependo, 
Mas na verdade, sempre brinquei com a tristeza,  
Como alguns brincam com o fogo no verão, 
Espero-te bem e desculpa-me os pequenos infernos 
Privados, encerrado em casas de banho na madrugada. 

Turku 

27.01.2019 

João Bosco da Silva

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Casaco Castanho do Meu Pai 

Há semanas que não encontro lugar onde me sentar, 
Espaço onde cuspir as ruminâncias que me ajudam a engolir 
O Inverno quando não há lareira nem despojos de infância, 
Tento trazer o sabor dos pinhões ao verso, 
Mas na pinha só vejo a chama que já não me aquece, 
Só queria num momento o cheiro do casaco castanho do meu pai, 
Quando tudo era eterno e o tempo era mais um dia, 
Tenho fome, mas fome só do queijo com marmelada 
Que não voltarei a comer, não sei como cheguei aqui, 
Durar tanto para se chegar onde se não está,  
Como posso sentar-me agora e encontrar-me, 
Se não trouxe comigo o canto das andorinhas. 

Turku 

25.01.2019 

João Bosco da Silva

domingo, 13 de janeiro de 2019

O Teu Sonho 

Voltei a não ganhar nada no loto, tu dizes que sonhaste comigo, 
Outra vez, parece que ambos ficamos longe de uma felicidade breve 
Ao lado da catástrofe, nunca nos encontramos na mesma noite, 
Nunca nos encontramos numa cidade real, algo familiar sempre, 
Como uma memória, como o desejo do teu corpo, tantos anos depois, 
Perguntando-me a que saberá agora, mesmo que nunca o tenha provado, 
Mas o mesmo encostado ao barco, o mesmo que encostaste à cama de hospital 
Vazia, no quarto quase vazio, onde apenas o eco de alguém que foi, 
Mas realmente já não está, não te toquei, tu sabias que não o faria, 
Sabes que depois de uns anos, é impossível regressar,  
Nada mais perigoso que reencontrar algo pela primeira vez, 
Uma cidade familiar, desconhecida, se calhar em Espanha, 
Uns minutos num hotel a tornar a eternidade em algo possível, outra vez, 
Sem esperar por outra vida, dizes que sonhaste comigo, 
Quem sou eu nos teus sonhos, deitei-te na cama desta vez? 

Turku 

13.01.2019 

João Bosco da Silva

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Incompleto 

É triste perder um amor, mas mais triste é perder a vontade de o foder, 
Olhar as luzes longínquas onde mora gente, se calhar desconhecidos 
Para sempre, ou com potêncial esmagador de certas aparições, 
E ter vontade de uma nova perdição, de uma tristeza aconchegante, 
Algo que quebre o silêncio da neve com uma dureza nocturna, 
Cada primeiro beijo é um Inverno por chegar,  
A textura quente da novidade gasta-se como um cheiro demasiado familiar, 
Resta apenas aquilo que realmente cansamos, nós mesmos, 
Numa moldura de um olhar novo, mas tão sempre iguais 
Ao medo de não nos reconhecer-mos nos primeiros espelhos, 
Tudo se torna numa repeticão onde se verte o futuro ora num vazio, 
Ora numa extensa esterilidade que rapidamente te pede que te varras todo, 
Como se o que antes se pedia nas entranhas, agora uma contaminação 
Repugnante numa pele mais pronta a um nome para esquecer. 

Turku 

11.01.2019 

João Bosco da Silva

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Primeiro 

Acabamos sempre por secar, os anos passam e parece que só nos fica a solidão, 
Como se fosse o que nos mantem o nome colado aos ossos, 
A cor dos olhos aprende-se a esquecer como se as partidas fossem últimas, 
Nada mais cabe nos bolsos vazios, nada mais o vento traz depois de tanto inverno, 
Tudo seca, as palavras perdem peso e custam cada vez mais a engolir, 
Todos os sofás um refugio vazio como os sorrisos estranhos que se colecionam, 
Como carrinhos de brincar enferrujados em cima de um guarda-fatos inútil, 
Até as revistas de banda-desenhada perderam o cheiro às manhãs de junho, 
Fomos feitos para perder, como espécie, como alma, como tudo, 
Somos rios estéreis e fazemos da vida um mar deserto com esquecimento, 
Temos sempre tanto quando não precisamos e o abraço cai sempre ao lado da salvação. 

Turku 

06-01-2019 

João Bosco da Silva

sábado, 29 de dezembro de 2018

Último Natal

Tenho esperado por uma alucinação pura, uma derrota de braços abertos,
Algo que salve o último Natal, todos vivos em si, o avô ainda surdo,
Algo claro como a evidência luminosa do Sol através de uma lâmina de gelo
Arrancada de um poço à beira de um caminho onde nunca me perdi muito,
Tenho respirado frio, mas falta-me o ar fresco do monte que ardeu,
Como a inocência do orvalho nos olhos da infância, numas couves,
Numa manhã de lareira acabada de nascer de pinhas de verão,
Tenho esperado, mas de mãos nos bolsos, na verdade, com nada conto,
A não ser com a má vontade da língua e o arrastar de olhos pelos dias alheios,
Todos, agora, os que só o meu mesmo nome conheceram.

Turku

28.12.2018

João Bosco da Silva