domingo, 24 de fevereiro de 2019

Gudang Garam 

Fumo este cigarro com a satisfação dos amores fracassados 
E tem um sabor doce como a catástrofe de um incêndio num dia de procissão, 
Sopro o fumo pesado como lamentos saudosos sem vontade de regresso, 
Longe estão os bancos de jardim geados onde penei 
Ou os bancos de trás onde não estive, os franceses num Natal agoniado, 
A falta de pé para o salto quando a vontade de mergulho asfixiava, 
Não voltarei a temer a canícula, aprendi a saborear infernos, 
Apanhei gosto à profundidade dos abismos e ao toque da escuridão anónima 
Entre o abraço do salitre e sonhos perdidos, 
Chupo o cigarro e crepita, as memórias consomem-se 
Nas cores de um funeral hindu e estou em paz com a solidão. 

Ubud 

16.02.2019 

João Bosco da Silva

sábado, 23 de fevereiro de 2019

Advertências Tropicais 

Podia falar de Lisboa, mas apenas dois ou três amigos e umas noites raras, 
Que parecem ter sido um sonho estrangeiro, podia falar de como gosto 
De trazer comigo o António Lobo Antunes para a beira de doenças tropicais, 
Nórdicas queimadas do Sol com um fogo que de dentro se apaga, 
Mas hoje prefiro falar do perigo que é deixar russas à vista das aves de rapina, 
Corujas sorridentes, filhos do sul e de Janus, forjados a chico-espertismo 
E pasteis de nata, o amigo nórdico piscou um olho, quando os dois abertos, 
Um esvoaçar violento, um espasmo de rapto e a russa de papo cheio 
Sacode a areia dos joelhos enquanto o mar desenrola histórias futuras. 

Canggu 

10.02.2019 

João Bosco da Silva
Nostradamus Nas Asas De Uma Mosca 

Minto quando digo nada, quando me perguntam, em que pensas 
E os olhos longe, numa mosca que move as asas na mesa, 
Ou talvez não minta tanto, porque em vez de pensar, vejo, 
Todos os fins por vir, os fogos que o monte espera, 
O esquecimento que a distância tranca nos olhos da amizade, 
Os amores que se apagam e se trocam porque o coração 
Uma noite escura e os tomates um buraco negro, 
Vejo o fim de todos os verões em pleno inverno, 
Daí o silêncio, ouço os sinos dobrar por cada sorriso 
Nos lábios que a terra cobrirá para sempre, 
Às vezes vejo no dançar de uma sombra, ou nas janelas 
De um comboio, nas mensagens secretas das texturas das paredes, 
O futuro comum a tudo, em que pensas e na verdade, 
Não minto quando respondo, em Nada. 

Canggu 

14.02.2019 

João Bosco da Silva
Da Distância 

Enquanto bebo este café distante, encostado a uma pele que me parece emprestada, 
Não é a água quente do Índico que me faz lembrar da tua envolvência 
Em noites estreladas e secas, nem sequer me lembro de ti, tal é a abundância de fruta fresca, 
São as notas com muitos zeros que me fazem ruminar e como hortelã-pimenta, 
Surge fresca a memória daqueles dez contos e o último abraço do meu avô, 
Antes de partir com as perdizes e os javalis que caçou, o mar pouco me diz, 
Cheio de segredos e abismos demasiado profundos para uma alma pesada, 
Não temo nem desejo o horizonte, só o esquecimento me assusta, por isso, 
Pego numa nota de cem mil rupias e relembro como quem perde uma vez mais 
E os momentos passam, ficando só um abraço no vazio, uma mão estendida 
Algures na memória, tão próxima quanto os sonhos quando se acorda. 

Canggu 

09.02.2019 

João Bosco da Silva
Transpirações 

Ninguém caminha neste paraíso demasiado encontrado, 
Procuras a beleza entre uma avalanche de plástico 
E tentas desculpar tudo como se fossem oferendas além memória, 
Os cães adoptam qualquer um com a resignação silenciosa 
De um amanhecer cinzento, tudo sobre duas rodas apressadas, 
Como se não se tratasse de uma ilha, duas rodas a carrinha dos gelados, 
Duas rodas a roulotte dos almoços à procura das bocas trabalhadoras, 
Duas rodas todas as vidas perdidas, porque todos se perdem, 
Tudo se perde, seja a ilha no Índico ou no Sistema Solar, 
Quase se sente o toque da salvação, quando numa brisa rara e tímida, 
O verde te saúda, até à vista, por cá ficarei quando regressares 
Ao papel em branco, até à vista, que os próximos donos do mundo 
Te tratem com mais gratidão. 

Canggu 

07.02.2019 

João Bosco da Silva

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

A Outros Avós 

para o Marco, 

Não range mais aquele soalho, a vida é mais curta que umas tábuas, 
Descola-se mais rápido que um papel de parede, e nós que somos eternos, 
Porque jovens, já começamos a olhar para o número que temos na mão, 
Sabíamos que não eram eternos, mas será que sabíamos mesmo, 
Enquanto passávamos carradas de gel na cabeça para impressionar 
As filhas dos vizinhos, mesmo de Inverno a geada empalidecia, 
Despacha-te lá que o rapaz está à espera, na verdade tinha tempo, 
Sentado em frente ao aquecedor a gás, naquela bela sala, 
A discutir coisas que realmente não percebia, comentando quão mal ia o mundo, 
Segundo o que a televisão nos cuspia, fazia o papel de bom rapaz, 
Até o era na verdade, pelo menos aos seus olhos, apesar de também 
Montes de gel na cabeça e o cabelo demasiado comprido, 
Nunca mais voltarei a subir aquelas escadas de madeira, 
Sentar-me-ei, um dia que possa, nas de pedra, lá fora, 
Porque essas ao menos não nos dão a ilusão da eternidade, 
Tenho pena deles amigo, sinto que falhamos, devíamos ter continuado 
A usar muito gel no cabelo, deixar a barba por vir, não crescer, 
Devíamos ter-lhes dado mais tempo, quando éramos seus donos. 

Turku 

31.01.2019 

João Bosco da Silva