quinta-feira, 11 de abril de 2019

Beirut 

Há dez anos que me julgo velho, só agora estou certo, 
Não sei quem me apresentou à fome de concertina, 
Tenho ideia de que foi a amante turca numa carta 
Que escondi demasiado bem, do perfume tenho a certeza, 
Mesmo que a direcção da memória, desorientada 
Por tempestades que fui conhecendo por acaso, 
Acho que ela vive em Gales, com um velho da minha idade, 
Mudou o apelido, a cor do cabelo ou foi a humidade, 
Ou o vermelho envelheceu, afinal éramos jovens, 
As uvas daquele porto vintage a poucos meses de maduras, 
Mas quando o cheiro a bagaço no ar, já andava a enganar frios 
Com a prima na serra, ainda casada com desilusões, 
Só continua a fome à concertina e sonhos de americanos 
No mediterrâneo, a vontade de ser feliz à chuva no verão. 

Turku 

11.04.2019 

João Bosco da Silva 

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Fallout 

Não é de ti que tenho saudades, mas das ruas escuras das aldeias 
Quase desertas e do cheiro a cona nas casas abandonadas, 
Os dedos fatigados pela cerveja empurrada na solidão dos tascos, 
A entrar na inocência sem lhe tocar, porque está tudo perdido 
Antes da evidência das portas dos carros a trancar verdades submissas, 
Têm passado anos sobre mim e só tenho ganho o cansaço 
Que cada nome me planta nas têmporas geadas pelas manhãs perdidas, 
Que segredos te poderia contar, se não fôssemos só carne e fome, 
E sonhos contrariados de joelhos, hóstias e penitência, 
A primavera é o cheiro que fica no mento imberbe e sedento, 
Quando os joelhos se juntam em direcção a um tecto quase ruína, 
Não é de ti que tenho saudades, mas das palmas abertas 
Revelando ao luar o caminho até ao oblívio azedo dos dias quentes, 
O pecado emprestado à festa da terra, o granito que rasga melhor 
Que qualquer beijo, com ou sem vontade, a pele que cede, sempre. 

Turku 

08/04/2019 

João Bosco da Silva 

sexta-feira, 29 de março de 2019

Andar Aos Pássaros 

Lembro-me bem do sabor do chumbo entre os dentes, 
Do cheiro a musgo e infância nos dedos cada vez menos meus, 
A arma de pressão tinha vindo da Espanha, para matares os pardais, 
Disse o meu pai, eu preferia atirar às molas da roupa na corda do estendal, 
O pequeno pássaro na mira, nervoso, vivo, um pedaço de céu castanho, 
No meu dedo o poder de o transformar num número, 
O meu coração como o punho pequeno, tão vivo quanto ele, 
O pedaço de chumbo que há pouco entre os meus dentes 
Agora entrando no corpo pequeno do animal, apagando-o, 
O coração acelerando os passos de encontro à victória, 
Que afinal, um pedaço de céu destruído, pequenino, 
Uma agonia em miniatura do tamanho de todas as agonias, 
Eu mais pequeno que o chumbo, que o corpo onde agora o chumbo, 
Um orgulho envergonhado, aquele bicho ainda quente, 
Nas mãos cada vez menos minhas mãos, agora mais metal 
Que o aconchegante cheiro a musgo e infância, 
Mais um, como mais tarde mais uma, quase a mesma vergonha, 
O desencanto de acertar, de entrar, porque é o que esperam de ti. 

Turku 

29.03.2019 

João Bosco da Silva