domingo, 26 de maio de 2019

La Femme d´Argent 

Hoje escrevi o primeiro poema de Maio e o céu tem a cor daqueles dias tristes 
Dos quais tenho saudades, chovia também nesses dias e as gotas escorriam 
Pelos vidros da Mitsubishi ao ritmo de Mike Oldfield, encostava a cabeça 
E tudo me sabia a mercúrio frio e às pocilgas na Espanha fronteiriça, 
Contudo tinha as mãos vazias e jovens e havia satisfação naquilo tudo, 
Saber que ia morrer, cair num vazio absoluto e que o mundo passaria bem sem mim, 
Que rico me sentia com aquela aconchegante tristeza, 
Aquela verdade que ninguém parecia ver, na cor do céu, em cada sorriso 
A promessa de uma lágrima, muros de pedra ao vento numa aldeia deserta, 
Cujas mãos construtoras há muito uma fotografia apagada pelo sol no cemitério, 
E o poder de acabar isto tudo na sorte e na vontade que esmaga todas as outras, 
Acabar um universo com um murro num espelho de guarda-fatos carunchoso, 
Escrevi o primeiro poema de Maio, engolindo a tristeza sem razão, 
Não culpo o céu de chumbo, o peso do ar entre os goles de cerveja, 
Quente, não culpo a evidente verdade há muito coberta pelo cotão dos bolsos, 
Culpo esta camada fininha de gordura que me reveste a alma 
E me impede de lamber o sabor o cinzento como prata, 
Se algo me falta é a miséria, daí me sentir, talvez, miserável ao Sol de chumbo. 

Turku 

26.05.2019 

João Bosco da Silva 
Chuva de Maio 

Posso dizer-te que já morri há muitos anos,  
Fiquei algures entre os cogumelos secos à chuva de Maio 
E aqueles olhos que não me viram e nem me interessei, 
A vontade tornou-se numa fome que se tolera até à hora da merenda, 
Tenho desejado tal como fazem os mortos e os iluminados,  
Mas continuo a tropeçar como num quarto escuro e estranho, 
Tem chovido e o ar sabe àquela Primavera cinzenta 
Que começou num caminho lamacento dentro de quem 
Gerou filhos de um cornudo que nunca cheguei a conhecer, 
Tem chovido, mas entre uma chuva e outra, só o coração seca. 

Turku 

26.05.2019 

João Bosco da Silva 

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Primavera Fria 

Como o amor 
as nuvens -  
certeza de precipitação. 

Que sabem as flores 
do vento 
de tempestade? 

Enquanto se espera 
pelo verão 
secam as flores. 

Num canto escuro 
secam as batatas -  
batateiras em flor. 

Cheira a madeira 
ferro e terra -  
meu esperma imberbe. 

Vazio o regador 
espera 
os dias secos. 

Cresce apenas o silêncio 
e o vazio dos pipos -  
aldeia. 

O verde cheiro 
da infância -  
Chove. 

Torre de Dona Chama, Abril 2019