segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Óculos 

Não deve haver nada mais vazio que os óculos esquecidos, 
De alguém que acabou de morrer, ali abandonados, 
Em cima de uma mesa de cabeceira, já sem cama ao lado, 
Aqueles óculos que tanto viram, ou deram a ver, 
Os pecados que comungaram, a última impressão digital numa lente, 
Que ninguém irá incomodar, ninguém os quererá herdar 
Caso os anos acertem nas dioptrias, o que terão focado, 
Uma última vez, aquele tecto de agonia, um estranho 
Que tenta roubar mais uns minutos à morte, para nada, 
Um medo que se aceita porque não pode ser já, 
Que dirão no trabalho e a mulher já anda a preencher vazios 
Antes ainda dos óculos na mesa, esquecidos, inúteis, 
Um mundo que se acaba quando perdidos em vida, 
Agora em cima da mesa quando uma vida se perdeu no mundo. 

Turku 

30.06.2019 

João Bosco da Silva 

sábado, 10 de agosto de 2019

João Bosco da Silva

Um Tropeço nos Dias Quentes

poesia
Enfermaria 6, Lisboa
Julho de 2019, 108 pp
Capa de Gustavo Domingues E StudioPilha

10€ 


Lisa

Quando Lisa me disse que tinha feito amor
com outro, na cabina telefónica vazia daquele
armazém da Tepeyac, cri que o mundo
se me acabava. Um tipo alto e magro e
com o cabelo comprido e uma gaita enorme que não esperou
mais de um encontro para penetra-la até ao fundo.
Não é algo sério, disse ela, mas é
a melhor maneira de tira-te da minha vida.
Parménides García Saldaña tinha o cabelo comprido e poderia
ter sido o amante de Lisa, mas alguns
anos depois soube que tinha morrido numa clínica
psiquiátrica,
ou que se tinha suicidado. Lisa já não queria
deitar-se com mais falhados. Às vezes sonho
com ela e vejo-a feliz e fria num México
desenhado por Lovecraft. Escutamos música
(Canned Heat, um dos grupos preferidos
de Parménides Garcia Saldanã) e logo fizemos
amor três vezes. Na primeira veio-se dentro de mim,
na segunda veio-se na minha boca e na terceira, apenas um fio
de água, um curto fio de pesca, entre os meus peitos. E tudo
em duas horas, disse Lisa. As duas piores horas da minha vida,
disse desde o outro lado do telefone.

Roberto Bolaño, trad. João Bosco da Silva

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Essi 


inspirado no poema "Lisa" de Roberto Bolaño,

Mal acabamos de foder, disse-me que tinha estado com outro 
Havia dois dias, um gajo que conheço, já o tínhamos feito antes, 
Só te digo porque não quero que haja dúvidas, 
Não éramos namorados, mas tínhamos fodido 
Nas últimas semanas, saído juntos e quase feito amor, 
Naquela noite saí da cama e fui deitar-me no sofá do outro lado 
Do quarto, ela perguntou se eu queria que se fosse embora 
E eu disse que não, às tantas ela atravessa a escuridão 
E deita-se ao meu lado envolvendo-me num abraço, 
Como se me amasse, não percebi que dúvidas ela queria esclarecer, 
Eu virado para a parede, entre o desejo e o ódio,  
Sem saber por qual me deixar dominar, apenas com uma certeza, 
Que nada mágoa mais que a honestidade crua do que amamos.  

Turku 

08.08.2019 

João Bosco da Silva 

sábado, 6 de julho de 2019

Chocolate Starfish and the Hot Dog Flavoured Water nº2 

Se te tivesse beijado antes do jantar, terias percebido o sabor ainda 
Evidente nos meus lábios, daquela rosada cona fino-helénica, 
Contudo jantei como se tivesse fome, como se há minutos 
Não me tivessem engolido futuros arrependimentos, 
Seco, vazio, como todo o amor batido pelo tempo, 
Ainda encontrei antes do sono, um jacto para provar 
Que também o corpo mente, não só as palavras, 
Não te preocupes, lavei sempre a gaita da saliva das outras, 
Como a lavava de ti ao me afastar da mesa, por nojo aos cadáveres 
Que por ti entravam, ainda jovem, foram muitas as vezes 
E todas por vingança antecipada, por conhecer bem 
O que esses tornozelos prometem, se te tivesse beijado com 
O sabor íntimo de outra ainda na boca, talvez gostasses, 
Como gostas do sabor a olhos do cu imberbes, entre outros gostos 
De quem engole as hóstias com devoção, agradeço a tentativa 
De me salvares com o teu cu, quando tudo perdido, 
Mas nada me cura do aborrecimento que sempre se instala 
Quando me dou conta do naufrágio no horizonte 
E da tendência de me deixar influenciar pelo futuro nos meu actos de vingança. 

Turku 

30.06.2019 

João Bosco da Silva