sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Vestido Vermelho 

Nunca serás aquela loira de vestido vermelho a desaparecer na distância 
Como uma brisa fresca, apesar dos quase quarenta graus atenienses, 
Nunca terás todos os nomes possíveis, nem serás a manic pixie dream girl 
Que o tempo desfez, ama-se mais a ilusão que a verdade, 
Nunca te vi de vestido sem estares toda cinzenta, uns minutos e depois, 
Não tu,  um sol impossível nos metálicos invernos nórdicos, 
Nunca serás o que te sonhei, mas a culpa dos sonhos é de quem os sonha, 
Não de quem com um olhar, planta ilusões, que crescem em vazio, 
Maior ainda do que antes da semente, nunca serás aquela loira de vestido vermelho, 
Porque os filmes acabam sempre antes do roer das unhas se entranhar nos nervos, 
Antes do nome carregar toda a frustração e desprezo que os pós-créditos trazem, 
Se se esperar tempo suficiente, nunca serás aquela loira de vestido vermelho, 
Mesmo que tenhas sido aquela loira de vestido vermelho, mesmo que isto 
Quase seja um poema de amor, que nunca será, porque tudo uma vela curta, 
Numa noite de incêndio. 

Atenas 

09.07.2019 

João Bosco da Silva 

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Disforia 

Em cada promessa uma dor que se planta, 
O vazio é dono de todas as verdades 
E os sonhos não passam do confronto  
Dos nossos animais com as páginas 
Dos livros sagrados que nos foram 
Rasgando na carne, hoje existe apenas 
A certeza dos beijos para nada 
E tudo o resto são noites que sempre 
Acabam em arrependimento 
E evidências que fermentam 
Em remorso de pernas abertas 
E abraços sem despedidas, 
Que diz o asfalto frio onde os passos 
Solitários caminham em direcção 
À manhã triste, nada, nada mais real 
Que o eco de um copo vazio, 
Ainda em cima da mesa onde 
Por momentos se acreditou 
Que não é possível ser-se invisível, 
Fazem falta os cães vadios 
Nas cidades desertas, a companhia 
De um ladrar anónimo nas páginas em branco, 
Tudo acaba na certeza de umas mãos 
Vazias, nunca se tem nada de verdade. 

Turku 

02.07.2019 

João Bosco da Silva 
Boskowski Confessa 

Queria confessar-te o vazio nos meus sonhos dos lábios que toquei, 
Nunca que me lembre, sonhei com os interiores que visitei, sem palavras, 
Já sonhei mil vezes com os dentes que me morderam as beiças sedentas, 
Com as ridículas músicas românticas tropeçando em mais olhos que tomates, 
Mas nem uma daquelas abertas desilusões, tudo sabe a derrota quando se espreme 
A última gota na nádega, na língua, no luar, seja onde for, 
Cagar num deserto estéril onde nem moscas, contudo, vejo-as uma a uma 
Na imensa solidão do tecto à noite, quando a cama vazia e nem vontade, 
A porta fechada um conforto maior que todas as juventudes, 
Nada parece ter sido, duvido que sequer me lembrem, agora que mulheres sérias, 
Putas conformadas com a sua natureza, mães de desconhecidos, 
Depressões plantadas em algodão doce, cada uma, uma música ou um perfume 
E do nada, na presença das suas ausências, não amei nenhuma na verdade, 
Mas gastei todas as palavras possíveis na construção de ilusões palpáveis, 
Geralmente luzes apagadas, amor, enfim, lembrei-me agora enquanto geme 
Thom Yorke, que fodi um anjo de dezanove anos entre caixotes do lixo 
Enquanto o seu táxi não vinha, casou-se  pouco, também já é velha, 
Quando acaba a vida mesmo, quantos esquecimentos dura uma vida? 

Turku 

02.07.2019 

João Bosco da Silva