domingo, 8 de setembro de 2019

Na Cama Com Nietzsche 

Na verdade, de Nietzsche pouco ficou, só o fim dos Domingos de manhã 
E a consagração dos meus dezasseis anos, a poesia tornou-se nisto, 
Uma teia sem aranha, numa casa onde ninguém as moscas incomodam, 
A cristalização inútil daquilo pelo qual a inocência foi sacrificada, 
Cada verso a distância de uma pena de pavão transplantada, 
Tudo tão original quanto a raiz quadrada, cúbica, quântica, 
Do que se vai comendo por nomes, a copia da copia da copia, 
Como a felicidade da insónia à beira da agonia de uma solidão sifílica, 
Faz falta respirar no frio, mas todas as noites se tornaram tão vazias 
Quanto o sono, pensas que te encontrarás naquela doçura de adolescente perdido, 
Se pegares novamente no bigode do martelo, nunca voltará a ser a primeira vez 
A não ser a última, a vida, a poesia, o que anima, sabe ao último cigarro 
Da noite, em que não se fez nada mais que fumar os minutos 
E esperar pelo próximo, cada vez mais vazio que o anterior, 
Nada mais te salvará de ti próprio, especialmente quando te tornaste 
Num domador de cemitérios interiores, um trapezista de abismos abandonados. 

Turku 

08.09.2019 

João Bosco da Silva 

sábado, 31 de agosto de 2019

Canícula 

Uma sombra abafada no aperto da canícula, 
Essa promessa tão bem mentida, os galhos quebrados 
No silêncio que ninguém julga, tudo seca ao Sol, 
Tudo apodrece anónimo, todos sonham a vida dos outros 
Em pesadelo, nada serve aos egos insuflados 
Pelo ressentimento das escolhas impostas 
Pela pobreza de espírito, a estas horas mortas, 
Onde vibram asas de zinco, chupando um sangue 
Inútil, só a solidão cantada no galinheiro vazio, 
Refresca o cansaço de uma alma que há muito 
Perdeu ilusões de luz e eternidade. 

Torre de Dona Chama 

30.07.2019 

João Bosco da Silva 
Tesão 

Cada ilha um sonho que ficou numa distância segura e feliz, 
Entre nós, apenas a bruma de um dia quente, é Julho 
E tenho novamente dezasseis anos e os pêlos dourados 
Do meu mento bem alimentados com o mel daquelas pregas adolescentes, 
Refrescadas pela tarde no rio, estou velho no que os anos me pintaram na pele 
E no papel, contudo, sinto-me capaz de chegar aos sonhos 
Num orgasmo, sem esforço, sem evocar épicos clássicos, 
Apenas com o bater duro daquelas ondas douradas nas minhas salgadas 
Virilhas e a sinfonia verde das cigarras nos pinheiros. 

Agistri 

16.07.2019 

João Bosco da Silva 

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

No Restaurante Avissinia 

com Rimbaud, Platão, Sócrates, Henry Miller, Confúcio e Tatiana Faia 

Cheguei ao ponto em que nunca traficarei armas na Abissínia, 
Fiquei encalhado nas minhas vírgulas e versos tão longos como vazios, 
Consegui sentir-me invisível na Acrópole, sorri até por me lembrar 
Daquela noite de Julho quando li o Banquete de Platão, 
E me pareceu mais cheia do que todas as pedras nuas, 
Já pouco espero da amizade, muito menos ser salvo de um abismo 
Que o meu próprio vazio escavou, mas afinal há quem nos encontre 
Ao fim de uma tarde de pesadelo em ar-condicionado e nos leve 
A ver, entre pinheiros, uns buracos numas rochas, que uma prisão, 
Onde dizem Sócrates ter estado preso, e nos liberta, o mestre disse, 
Não uses o canhão para matar mosquitos, ou algo do género, 
Numa outra noite que nunca aconteceu, esta tarde foi verdadeira 
E o cansaço nem ousou impor-se quando a invisibilidade sucumbiu 
À amizade, vomitei ali mesmo todas as sementes de girassol, 
Como se de um vazio se tratasse e fomos jantar ao restaurante Avissinia, 
Parece tudo tão breve quando se trazem ruínas dentro. 

Turku 

30.08.2019 

João Bosco da Silva