segunda-feira, 21 de abril de 2014

Rimjobs E Buracos Negros

Somos tanto o mesmo, a mesma estrada a caminho da aldeia que ficou por visitar
E todas as promessas mentidas, necessárias ao alívio e ao consentimento da carne,
A consanguinidade atormenta tanto quanto atrai e fascina a familiaridade do pecado
Em casa, o trigo pronto para ser ceifado e a curiosidade verde longe do amadurecimento
Podre dos dias em que se é, e o mundo encerra-se num espaço restrito entre suor
Excitado e o muco de segredos que toda a gente confessa e limpa com hóstias
Coladas ao palato, desejando logo voltar a sujar-se com um rimjob peludo,
Só o que passou interessa e é o que somos, o resto é arrastar uma tentativa vã de
Romper com o limite do que se é e ser livre no aprisionamento de um outro,
O futuro é apenas onde não se está, mora ao lado do desejo, num fim de verão eterno,
Regressar à carne que um dia nos abençoou com a libertação de nós próprios
Parece um traição injusta à memória, confrontá-la com as medidas reais do que com
O tempo e a nostalgia tomou a forma de um sonho, mas que fazer quando fechou
Aquele café nas nossas costas e ficou uma insatisfação verde no regresso impossível,
Que fazer quando se torna impossível encontrar pedaços de espelho nos livros que se lê
E tudo aborrece por repetição ou tolerância, que fazer quando ardem as saudades
E se fica hipnotizado pelo fascínio da despersonalização das chamas nas circunvoluções
Onde se escondem os sabores reais do que ficou perdido num tempo por onde se passou,
É obrigatório morrer, como passar, o big bang não trouxe nada de novo a não ser
A possibilidade de uma coisa de cada vez, em vez de tudo no mesmo lugar ao mesmo tempo,
A nossa maldição é aprisionar pedaços de tempo num espaço demasiado pequeno,
Dizem que os neurónios e as suas sinapses se assemelham a um pequeno universo,
Não admira sentir-me tantas vezes perdido em estrelas moribundas e buracos negros.

21-04-2014

Turku


João Bosco da Silva

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Montanha-Russa

Depois de tão pouco, o invólucro aberto do preservativo continua onde os olhos o deixaram,
Intocado, há lugares que até o vento despreza, onde as sombras reinam e são memória,
Ou aqueles minutos antes de se adormecer por completo e quando os melhores poemas
Se tecem para ficar esquecidos na primeira mosca da manhã, não interessa e repita-se
Que as caras barbudas dos quadros já mudaram mais que o desespero dos suicidas,
As esculturas dos amigos estão tão cansadas de olhares desconhecidos que desejam
Chuva ácida e a morte eterna no anonimato de um calhau à beira de um rio de aldeia,
Estás perdido, há anos que estás perdido, mas como se pode alguém perder dentro
Disto, a não ser que seja uma perda de tempo, que a vida acaba por provar ser, não interessa,
Há inutilidades que permanecem inalteradas para nos lembrar que a imortalidade nem sempre
Se encontra na arte, na fama, no barulho, em lado nenhum, como mãos mortas em cavernas
Nunca descobertas para os lados de uma país qualquer da idade dos outros todos,
Resta sonhar enquanto se dorme e esquecer o resto dos dias por o que se acabou de parir,
Apostar tudo na incerteza, porque o tudo é tão pouco quando se consideram os fracassos
Desde que se deixa de acreditar que o Sol nasce para aquecer o menino e que o fogo
É para a mãe fazer a comidinha ao menino, um futuro possível impedido, ao lado do rio,
O vestígio de uma mortalidade sem precisar do corte da marcha-atrás, ali, ainda, depois de tão pouco.

Turku

10-04-2014


João Bosco da Silva

terça-feira, 25 de março de 2014

Golden Axe

Uma tosta mista às quatro da tarde à beira maldição e o que queria mesmo era jogar
Golden Axe até aos olhos em bico, cinquenta escudos, era tão barata a felicidade,
Longe de putas e outras vendidas, hoje tão distante, não me vejo sorrir em lado nenhum
E o meu nome é ignorado como tudo o que é comum e silencioso, vendia a alma por
Um nome barulhento e um espírito ordinário, nem sei se hoje há jogos de futebol,
Nem li o último livro daquele que dizem ser grande poeta, fecho-me e ouço cá dentro,
Além dos ecos de todos os gemidos em forma de promessa, a música do Final Boss,
Tão longe se chegou há tantos anos para agora isto, uma tosta mista às quatro da tarde
Numa cidade que me desprezou tanto quanto o que me apercebi dos dias cinzentos,
Não falhei nem um, mesmo assim, não fui batido, meto mais cinquenta escudos,
Continuarei a saltar em cima da merda e a salpicar burgueses e donos dos direitos,
Engolirei todo o nojo e seguirei em frente enquanto espero, um dia, diz quem lá está,
Eu escondo-me na fome e na solidão, em páginas amarelecidas e no cadáver dos sonhos
Cobertos por pó e indiferença, sou o undertaker dos meus próprios desejos, enterro-me
Na solidão dos outros e trago comigo os murmúrios da única sinceridade de que são capazes,
Agora chega, isto não é Earls Court, lá fora está Sol e tudo é o fim de alguma coisa, vão-se
Acumulando pequenos-almoços tardios como poemas indigestos, vamos a mais uma tentativa,
Menos cinquenta escudos, o gordo tombará e o machado será dentro dele entre tripas e
Todas as palavras que calará, os melhores poetas são os que calam quando têm mais que fazer.

Coimbra

20/03/2014


João Bosco da Silva
Chá Verde E Bolachas

Sonhei contigo e com o teu imaculado desprezo pela vida, senti meu o teu desespero
Iluminado e gritado por mil e uma alienações anarquistas, até me sorriste, como só
Tu conseguias fazer, rasgar da melancolia um esboço de felicidade, tu todo dentes,
Demasiados dentes na parede e as palavras a escorrerem de volta onde já não moravas,
Sonhei contigo e escrevo-te ao Sol da tarde, apanhei medo às auroras, as madrugadas
Encerram todo o mal dos dias, embriões metálicos à espera da desculpa do azar ou uma
Distração da sorte, agradeço-te a presença nos dias cinzentos e nas noites claras e dou-te
A razão, aqui só se dura depois de uns anos e a loucura é a própria vida, sonhei contigo,
Um morto, eu um pé atrás, tímido na medida dos impossíveis, na sombra do buraco
Que vou vivendo e ainda esperam que caía, as toupeiras, é lá que te encontro, na memória
Preenchida por carências básicas, sabes, eu também não me interesso, mas a minha música
Morrerá antes de mim, já o mijo secou todo no que um dia conquistei e já não consigo
Fingir mais, a pele de camaleão avariou naquela noite em que acordei e me vi com os olhos
Dos outros, era um espelho ridículo, tu foste a cura para todos os espelhos, irrepetível,
Um Sol amargo numa vida que toda a gente ressente por saber lá no fundo, não a merecer.

Torre De Dona Chama

15/03/2014


João Bosco da Silva

terça-feira, 11 de março de 2014

Noite De Poker

Tudo ficou naquela noite de poker, jogamos a fósforos,
De certeza que hoje já todos perderam a cabeça,
Quase tantas vezes quantas as vezes eu perdi a minha,
Não me lembro quem acabou por ganhar, sei que eu perdi,
Tenho agora as mãos cheias daquela noite e todas as suas
Possibilidades gastas nos dias que me afastaram dela,
Uma noite onde se encerrava um novo caminho, azul, de luz,
Escolhi dormir sobre a ressaca na segurança de uns dedos limpos
No primeiro Sol quente da manhã, e hoje sou apenas o que os
Pés me andaram, ou onde os pés me trouxeram, aqui, longe
Do café onde engoli em cerveja o arrependimento do que
Não mordi com a mesma vontade com que reescrevi toda a minha
Vida pelo filtro de um passo que ficou por dar, uma dentada,
Na verdade, menos uma foda, menos uma foda das muitas mais
Que ficaram por dar do que as que foram dadas, imitação de
Poeta com menos vontade de viver do que uma cabeça no forno,
Corta-se na abdicação de noites e sonha e exalta os curtos
Pecados que chocam na sinceridade os hipócritas fazedores
De cornos para si mesmos e para os amigos de bater nas costas,
Ficou tudo por ali e agora dizem-me que poderia ter sido eu,
Mas fui eu, eu que fiquei à porta dos olhos da vontade,
Agora olho e parece-me que fiz mal em não trocar a vaca
Pelos feijões mágicos, fiz mal, fiquei sem fósforos e a caminho
De mais uma para nada, mas o vazio maior da minha companhia sem
Os ecos dos gemidos que aquele que poderia ter sido, hoje
Provoca na mesma língua que a minha, mas sem o ser, perde-se
Sempre que se nega à vontade todas as possibilidades de um erro
E assim, o erro revela-se com todas as incertezas pelo durar fora.

19-02-2014

Coimbra


João Bosco da Silva
Insónias Em Garrafas Vazias

Ninguém acredita que como tapas às quatro da manhã com muita cerveja
E o Hemingway a medir o peso dos seus tomates com unidades de coragem
E machismo, eu ganho-lhe sempre, estou vivo, tenho o tomates cheios
De ressentimento e passo pela pior guerra de todas, a que travo todos
Os dias comigo mesmo, nem quando durmo tenho descanso, quem diria que
Um puto tão sossegado, engulo mais uns goles, deixo garrafas espalhadas
Pelo caminho que ninguém lembrará, morto, tudo, até a coragem, os
Tomates mais secos que o bacalhau da Noruega, por isso invejo a barba
De Dostoievski ou a de Whitman, enquanto a verdade fermenta na forma
De quem teve uma guerra mais íntima e todas as noites tinha a morte
Nas mãos, eu estive lá, naquela carne rejeitada pelas guerras, sem
Amor, mentira para roer até a fome desistir também, traições contadas
Como se possível também nos olhos reais, há muito que fica por dizer
Por pena, mas mais fica por dizer por medo, toda a gente sabe que
A maioria dos heróis nunca o foram por falta de testemunhas, durmam
Todos os génios enquanto todo o armamento dorme na companhia de
Toda a energia potencial e o medo de falar em público, leva o
Cheiro de uma cona nos dedos, ou a certeza do cheiro depois da
Apresentação da alma dissecada, para poderes dormir sem medo no
Teu esperma derramado no granito irmão do que me pariu, longe de
Todos os sonhos boreais, onde se espera o degelo como a vida.

19-02-2014

Coimbra


João Bosco da Silva

quarta-feira, 5 de março de 2014

Sobre O Poema

O poema, o poema não interessa, o importante é o percurso até à vontade do poema,
A vida consumida que dará carvão para poder surgir o registo do que ardeu, do que
Se sacrificou para poder existir na forma do que pode ser absorvido pelos olhos estranhos,
E digerido de uma forma sempre diferente, uma digestão inversa, entropia de pernas
Para o ar quando se lê, se recria aquilo que o poema se torna e é, não o poema, mas
O que o poema é nos olhos alheios aos dedos de quem o escreveu, o poema, esse,
Sozinho, que se foda, são palavras e as palavras não interessam, não sem o que lhe
Dá razão de ser, não sem o que as suporta e justifica, como o poema, sem os ossos,
E a carne e o sangue e o esperma e merda, não interessa a ninguém, a não ser a
Corpos vazios como as palavras vazias, alimentados com teoria e com a boca tão seca
De outras salivas, com os dedos manchados apenas com tinta, olhos grossos por terem
Visto a vida a poucos centímetros e cheios de certezas de cabelos brancos não merecidos,
O poema, o poema não interessa, mostra-me o que o trouxe cá, isso sim, me alimenta.

06-03-2014

Coimbra


João Bosco da Silva

terça-feira, 4 de março de 2014

Noiva De Vermelho

Tu és mais, eu
consegui ser
esquecimento.

Ela casou-se de vermelho, houve sinceridade na cor, com a naturalidade de uma segunda vez,
Desta, quem sabe, mesmo do admirador de hóquei no gelo, a primeira filha também de
Vermelho, mas inocente, da idade da que poderia ser minha, de vermelho como os lábios
Da mãe naquela manhã fria de Primavera cinzenta, depois de um café no restaurante
Da bomba de gasolina, a empregada a perguntar-me se queria mais alguma coisa, não obrigado,
Só estou a fazer horas para ir dar uma foda encomendada, numa manhã húmida, as florestas
Pântanos acesos, um dia perfeito para, trazes os preservativos e eu a manta, se estiver Sol,
Seco, fodemos na floresta, tenho mesmo que te foder, dizia vestida de branco, dizia ao Sol
À beira do lago Saimaa enquanto emborcávamos uma cerveja e falávamos de pouco e nada,
Além da necessidade de termos que foder, como se fosse algo que se tivesse que comer
Por estar quase a chegar ao fim o prazo de validade, ainda trazia o cheiro a Paris entranhado
Nos poros, talvez fosse disso, tenho mesmo que te foder, temos que combinar, dizia com
O noivo excitadíssimo com o mundial de hóquei no gelo, não me lembro em que país,
Viva o amor e os vestidos de noiva vermelhos com filhas duvidosas com os olhos da cor de
Outras possibilidades nascidas em pântanos e contas de cabeça apressadas pelo medo de,
A dar quase certo, quatro, cinco dias, como é possível, foda-se, será, furaria ela a negação
De além futuro, mas não, nunca o contrário, nem uma semana e já estava a receber
Ejaculações do noivo, ainda devia cheirar a sexo e latex no carro dele, cheirar a pressa, a dela,
Deixa-me provar-te, não, quero só que me penetres, entesa-me com a sumo a escorrer-me
Já pelas virilhas, salta-me em cima e parece um cavalo desesperado pela meta,
Sou apertada não sou, sentes como estou molhada, nem a paisagem se consegue apreciar
Com tanta pressa, a cerveja, depois de horas na floresta, escondido dos olhos do auxílio depois
Do pagamento do karma em forma de lama, já metabolizada, o útero já esquecido do latex
Dentro do carro do noivo, não quero preliminares, quero que me entres já, baixando as cuecas
Juntamente com as calças, e eu um excelente linguístico, apreciador de humores secretos,
Montou-me desesperada por um vestido de noiva vermelho, imagino o dia feliz, com Sol,
Como o que acabou por vir à tarde, depois de me ter vindo para um saco vazio, ou não sei,
Já com a pequena capaz de levar as alianças, as fotos no anoitecer tardio de Verão, daqueles
Longos sem chegarem verdadeiramente ao limite da escuridão, será que ela sabe, não interessa,
Está tudo atrás, tudo pela janela fora, ficou tudo dentro, seja no interior estéril de um preservativo
Integro, seja no útero infiel com um sorriso pálido de ninfomaníaca, tudo o que é real e
Sincero é o dia de vermelho, a felicidade mostrada no momento e na cabeça dele,
Nem um sinal, só eu e ela a visão dos seus cornos, quando ele o inocente, e o que é
Um momento, uma ideia, não estamos para abdicar, cumprir e sacrificar o desejo
E já se sabe que o desejo sabe sempre melhor quando vermelho, vestido de vermelho,
De vestido vermelho, não com as calças de equitação, mesmo, calças de equitação,
Umas cervejas e um pacote de bolinhos típicos, depois de muito tempo na floresta
Pantanosa, com os tomates vazios, com as calças novas e a camisola que a mãe
Tinha enviado para o aniversário, não um vestido vermelho, o sangue do mês,
Impossível, será, nunca o saberei agora, tudo camuflado por uma família feliz
E pela minha Psicose de Karsakov, ou não, sempre tomei as minhas vitaminas
Do complexo B, não é Buk, ao ver as fotos do casamento penso, será que ainda é capaz
Daquela manhã, quando fecha os olhos num dia de vontade ou numa noite de sonhos
E remorsos ou saudades, provavelmente só os meus dedos são capazes de recordar o que
A minha vida tocou nas vidas dos outros.

13-02-2014

Torre de Dona Chama


João Bosco da Silva

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Comparação Da Dimensão Do Espaço Depois Da Subtração Da História

“You can´t escape the past in Paris, and yet what´s so wonderful about it is that the past and presente intermingle so intangibly that it doesn´t seem to burden.”
Allen Ginsberg

Tens razão quando dizes que Montmartre é como a aldeia do meu pai, mas a aldeia do meu pai
Sempre comeu e bebeu  o que o suor e a terra lhe deu, lá se plantava e lá se colhia, em Montmartre
Há uma vinha cujo vinho quase ninguém prova, mas tanta gente conhece e viu, não me parece
Que comam as heras que crescem na paredes das casinhas, nem vi galinhas a correr pelas ruas
Ou debaixo das mesas dos cafés, vi sim uma ou outra pomba, aves citadinas essas, que raras vezes
Vi na aldeia do meu pai a pedinchar um pedaço de pão, na aldeia do meu pai não há pedintes
De nenhum tipo, só portas abertas e a partilha do pouco que se tem, mas Montmartre respira
Ainda, mesmo que o sangue seja vinho daqui ou dali, as casas brilham e no seu tamanho são
Maiores do que o desprezo dos descendentes que herdaram telhas que apodrecem e cedem
Tudo, colapsando todas as noites à lareira, todos os gemidos nos partos em colchões de palha,
Todos os gatos que entravam por buracos pequenos em baixo das portas, como o frio
Entrava nos ossos da gente, Montmartre tem ainda luz, tem olhos, tem gente, gente que
Procura nas ruas a presença de quem já lá não está, mas tens razão, as ruas são tão largas
Num lugar como noutro, apesar da macadamização ser bem recente num lado e estar
Já bem polida noutro, falta gente e uma cidade inteira aos pés para se poder comparar,
Mas mesmo assim, não sei onde me sinto mais em casa, se onde as memórias são minhas,
Se onde as memórias são as que queria que fossem minhas, noutros tempos, as mesmas pedras.

Coimbra

10-02-2014


João Bosco da Silva
Morte De Francesca de Rimini E De Paolo Malatesta

Lanciotto Malatesta depois de vestir a mulher e o irmão, sacode o sangue dos cornos
E mancha levemente as roupas dos dois amantes, que tinham estado a aquecer
Os ânimos com literatura pornográfica, o cabrão, quando viu o irmão a penetrar tão fundo
A sua bela esposa, desembainha a espada, já que o choque lhe encolheu a capacidade de
Desembainhar outra coisa, e portanto a possibilidade de um ménage à trois, ferido no orgulho,
Trespassa os dois que, provavelmente, nem notaram o metal que os espetava, só poderiam
Estar a partilhar um intenso orgasmo simultâneo para não repararem na presença chifruda,
Dizem que da rua, não se ouviram gritos de dor, só gemidos, há ainda quem diga, que
Estavam abraçados a ler, ou que estavam a dar o primeiro beijo, mas só estando numa
Foda desenfreada é que não se nota no brilho de uma espada contra a luz do Sol,
É de mau gosto, comer o que é dos outros e nem partilhar, foi isto que deixou o gajo fodido
E o fez decidir pela espetada, agora o que os poetas disseram sobre, é pura especulação poética.

10-02-2014


Coimbra

João Bosco da Silva
“Em Busca Do Tempo Perdido”

“You belong to me and all Paris belongs to me and I belong to this notebook and this pencil.”
Ernest Hemingway, “A Moveable Feast”

Nem cheiro de Hemingway, e de Miller só um toque nas costas lá para os lados da descida da torre,
Enquanto se espera, arrisca-se, de Pigalle muitas promessas de dildos e bolinhas no cu, as luzes
Lá estão e as adolescentes bêbadas, sem necessidades, só vontade de vomitar nas ruas, ecos
De avós e visavós, deslumbramento precoce das traças pelos candeeiros e a alienação da massa,
Demasiada gente enlatada à espera dos mausoléus, disto ou daquilo para chegar a tão pouco ou nada,
Ou apenas a sinceridade real de uma desilusão, só nos copos de vinho excessivamente espremidos
Se encontra o bigode de Django Reinhardt e o brilho de outros tempos que só as paredes conheceram,
Sonha-se na viagem, as ruas encerram tudo, o copo vazio desmistifica a neblina, o vento frio entorpece
A caneta e os dedos, não há outra aventura além do risco da violência inocente na madrugada da metrópole,
Metropolitain e muito barulho das luzes, vende-se a ilusão a pratos cheios e quentes, diferentes
Da Dobrada à Moda do Porto e no final as casas de banho só escondem cheiro a mijo e ecos do que cada
Um pode imaginar segundo as suas experiências, o cansaço eleva razões para o salto nas cidades
Virgens de libertinagem, apesar de tudo, sente-se a vibração latente nos olhos dos que procuram
A possibilidade de um filme de Woody Allen, mesmo que patológica a nostalgia como a saudade,
Um dia também a poderá conhecer e explorar numa cidade onde arrefecem pratos, onde renasceu
Zombie poeta um aldeão viciado na passagem e na paisagem, imediatamente se esquece o verdadeiro
Sabor e fica apenas a recordação do gosto quente, nas palavras nunca arrefece, por isso sonho
Com Paris dos livros, aqui, neste Paris onde os copos se esvaziam, adiando o sono e a visita a ecos de génios.

08-02-2014

Montmartre


João Bosco da Silva

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

A Transcrição Da Saudade

ao meu avô Jorge,

A caneca sobreviveu-te, ainda há copos que vibram na recordação dos teus lábios
Pintados pelo vinho , as cartas evaporam-se num canto onde o pó se esquece,
O teu canto à beira da chaminé nunca será preenchido, venha quem vier, até eu
Me sinto esmagado pela ausência de ti todo, quando concentro o meu peso e o meu
Sofrimento na lareira que crepita com o gotejar da gordura de uma chouriça que nunca
Irás provar, a mim tudo me pareceu gratuito, sabendo que a mim, nem a caneta me
Sobreviverá, do que são feitas hoje as tuas mãos nodosas e onde estão as batatas
Que tu arrancavas da terra, não serei egoísta ao ponto de dizer, morreste-me,
Porque na verdade, morreste-te, a ti e a tudo o que era teu, com eu, uma
Extensão do que extraíste da terra e apesar da tua surdez se ter tornado no
Eco da eternidade, cá me estás, mesmo que nem uma palavra, nem uma só história das
Que tanto gostavas de repetir, só a sombra da tua presença, à lareira, nas noites frias
Destiladas a fogo e vinho, pela vida fora, até que nem o cansaço te cedeu, só a vida,
Tu sempre maior e mais forte que tu próprio, nem te sentiste, nem te acreditaste,
Ainda hoje estás certo que eterno, também eu, aqui te sobrevivo, entre um vazio
E outro, que a vida é isto, esvaziar, despejar no nada tudo quanto se é, até não haver
Mais que se seja, tudo tão certo como a garrafa que se encerra na mão e já vazia,
Tão seguro como a mão que a empunha e sem se perceber a larga por um instante
E a garrafa partida, a tornar o seu vazio do tamanho do mundo, aperta-me a mão,
Mesmo que tu já nem mão, tu todas as mãos que nunca serão a tua, como foram
As mulheres aquela que nunca foi, percebes-me a estas horas antes da primeira caneca,
Falemos na linguagem das cartas, deixo-te roubar, contigo perder nunca será perder,
Só perdendo-te, eu parto, baralha tudo como se fosse a minha cabeça, tu sabes,
Sempre decifraste bem a cor dos meus olhos e o sofrimento da minha carne dissecada
Pelo vício dela própria, digo-te que nunca chorei, porque nunca te vi chorar, os homens
Que vivem na vida, não choram, sangram, aí eu falho-te, sou muito espectador,
Toco demasiado sem tocar verdadeiramente em nada, crio tanto sem direito a espaço,
Nem uma fruta, só a vontade, talvez, um corte, uma fatia de queijo de manhã, na transição
Da ressaca, na morte da juventude, enquanto o Sol, lá fora, indiferente a todos os ossos,
Nos envelhece, nos separa com dias, tempo, invejoso do tamanho da memória,
Acreditaste mais no poder da terra e da carne, mesmo que a cara salpicada de água
Nos Domingos e o adro na tua presença, a olhar para as mulheres de lenço na cabeça
Certas dos pecados, decorando um arrependimento para a representação de teatrinho,
A caneca sobreviveu-te, o vinho é que não será nunca a mesma coisa depois do inferno.

05-02-2014

Coimbra


João Bosco da Silva

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

As Dimensões Das Cordas

Sempre julgaste que crescer não passava de uma alteração no ângulo
Com que o Sol te desenha a sombra no pó do caminho,
Entretanto o teu pai a correr no prado devastado pelo monte
Com os sapatos de Domingo para a fotografia,
Os únicos, com uma idade que nunca lhe imaginaste
E hoje da idade que nunca te viste ter,
 A cerejeira também secou e seria um luxo
Se o avô trancado nela pelo apodrecimento fora,
Tudo se perde, e de tudo o que se perde,
Só cresce a ausência do perdido, na companhia dos sonhos
E das desilusões, arrastam-se as pernas da alma,
Num corpo violado tantas vezes pelo que tinha que ser,
O pó que se levanta no caminho quase tão efémero,
Mas até ele, como o nome, se limpará dos sapatos
Dos que seguem atrás, perseguindo sombras com medo
Dos sonhos que prometem chuva, lá para as horas das cordas.

28-01-2014

Coimbra


João Bosco da Silva

sábado, 25 de janeiro de 2014

“Mr Mojo Risin”

Procuras entre quatro paredes saturadas pela tua presença, uma companhia,
O espectro de uma garrafa de vinho que um dia enterraste na areia e bebeste na companhia
Do pôr-do-sol, tentas lembrar-te de quem eras na noite em que bebeste uma garrafa
De sake e escreveste um poema sobre uma tatuagem num ombro ao som dos The Doors,
Procuras-te menos nesse quarto fechado, onde estás, procuras-te dentro, onde não estás,
Reflexos que nunca encontras no espelho em que realmente te espelhas, procuras
O reflexo no hipocampo, nunca acreditaste na companhia que te fazes, preferiste sempre
A companhia imediata da bebedeira e das casas de banho em bares quase vazios,
Procuras porque tens as mãos cheias e os braços cansados do peso dos dias, sempre
Os mesmos, para cima, para baixo, para cima, para baixo, uma masturbação por necessidade,
Um desespero de verter como quem faz uma sangria na alma e fica melhor, porque menos,
Na palidez encontras-te mais facilmente com a eternidade, procuras-te nos ecos daqueles
Gemidos que nem do teu nome capazes, mas que interessa, se tu tão certo da presença da tua
Carne, nada te dá mais certeza que a dor, procura-la sempre que sentes a invisibilidade
Tomar conta de ti, gritas com vontade, sopras contra o castelo de cartas só para que se voltem
Para a demolição da beleza que com tanta paciência construíste, procuras a companhia
Do granito a rasgar os teus punhos enquanto rezas e vertes o teu corpo líquido na pedra
Quente entre as pernas de uma capital, a tua curiosidade sempre foi passiva, para satisfazer
A dos outros, e tu inocente sempre, em todas as fodas anónimas, em todas as traições
Sorridentes e sinceras, na aceitação da fruta, sempre engoliste até ao fim, cego, fascinado
Pelo fascínio que fingem ter pela tua alma apagada e cinzenta, procuras uma confissão,
Mas não consegues falar de outra forma que não esta, confessas-te por isso aos copos vazios
E aos sonhos nas noites de insónias e de transpiração por abstinência de excessos.

25-01-2014

Coimbra

João Bosco da Silva

Publicado na antologia "Voo Rasante", Mariposa Azual

Excerto lido por Sara F. Costa: https://soundcloud.com/sara-f-costa/joao-bosco-da-silva-quente-entre-as-pernas-de-uma-capital 

A Sombra Do Silêncio Em Tábua Rasa

Que esperas ouvir do crepitar dos ossos esquecidos pela carne que lhes pesou,
Nas horas em que te deixas embebedar pelos luares do desespero e chamas à solidão
Uma forma de arte, ou essencial à identidade, quantas vezes o espelho não te reconheceu
E vias pouco além do desconhecido que te tornaste, não te percas em paragens demasiado
Familiares, o desencontro mora onde se costuma descansar e é sempre demasiado tarde
Para recomeçar a palpitação do coração que se cansou de tanto desistir, come pétalas,
Mas nunca conseguiras absorver a efemeridade da beleza, come momentos, nada te alimentará
Mais a melancolia que te atormenta os dias que sentes, presentes, há quem se tenha
Envenenado com cor, outros com a lucidez extrema ao ponto de uma loucura sóbria
E aceite pelos rebanhos mais violentos, que esperas ouvir da ressaca do incêndio,
Da sombra da tua felicidade quando os joelhos se confundem com o chão e o futuro,
Boceja enquanto for legal e ridiculariza-te antes que alguém o faça por ti, ninguém mais
Tem o direito de te conhecer melhor do que tu mesmo, abre as mão e não tenhas
Vergonha do orvalho que escondes nas unhas sujas da infância, a sinceridade nunca
Foi polida, o olhar é mais claro quando fica pela confiança, descansa que o teu ombro
Já somou favores suficientes, já mereces uma vela nas noites escuras, mas cuidado.

25-01-2014

Coimbra


João Bosco da Silva
Entre O Limbo E Uma Conversa Possível

Conta-me agora o que ficou por dizer naquela estação em Salo,
Também a ti te apetece desaparecer muito, ou só um pouco,
Também te escondes nas visitas à loja de bebidas depois do trabalho,
Procuras algo familiar no fundo da garrafa e pedes esquecimento,
Os teus amigos, desaparecem-te quando te escondes, ou em dias
Cinzentos, conta-me como morreram os teus cães, sem nomes,
Quero deles mais que isso, quantos cemitérios encheste de ti
E quantas visitas deixaste sem ti, tens recusado madrugadas,
Daqui, sinto uma estranha nostalgia de alpendres e erva tocada
Pelo fim de uma tarde quente, nenhuma das que possa chamar
Minhas, mas já me conheces, apesar dos olhos fechados,
Entre o pó e a eternidade, agora brindava contigo, mas só tenho
Copos em branco e livros cansados do medo de os revisitar,
Quando me visitares crescerei a barba para que me reconheças o olhar,
O inocente e o que a loira me desenterrou no sofá daquele hotel
Enquanto a irmã esperava por cubanos e um toque italiano que
Nunca entrou no elevador, podia contar-te mais em padrão de
Leopardo, mas primeiro quero ouvir-te, alto os teus segredos,
Antes que me esqueça do cheiro das tuas palavras e do timbre
Do teu ritmo de incerteza, mas não te queixes, deixa isso
Para os meus poemas de recreio, deixa isso para os porcos
Enquanto a mãe colhe o seu sangue por entre a faca, também
A dor se come, há lágrimas que alimentam, enquanto os sonhos
Se consomem na lareira que aqueceu a carne tenra de anos e perdição,
Conta-me enquanto espero pelo arrependimento, conta-me antes
De chegar onde ficou o vazio do que se levou e se traz agora a ser.


15-01-2015

Coimbra


João Bosco da Silva

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Nem Sempre Te Encontras No Horizonte

Os olhos de Mordor, no horizonte de outros tempos, lembram-me que a era
Do Tulicreme em pão caseiro acabou, entretanto empunho nos queixos
Um Ventil em direcção ao lameiro das ressacas virgens das macieiras desaparecidas,
Também o meu avô onde as macieiras, e aquele, a quem roubei o momento para
Poder dizer que eu isto, eu um dia, e por isso aqui, a martelar um poema
Que tinha ficado na inspiração de uma noite de cerveja com os tios de França,
Até o Kerouac se deixou levar para onde todas as macieiras vão ao secarem,
Ou não, às vezes só porque as vacas precisam de espaço para pastar e a sombra
Oculta certas vaidades, o caçador já tem o caminho alcatroado até lá, onde
O enterraram, nem sei onde apodrece o Jack, nem o Bull, nem o que se tornou
Hippie e perdeu a voz comprimida de quem escrevia para o vazio, sem plateia
A quem agradar e vender, não o censuro, eu que me prostituí tantas vezes,
Para compensar a falta de imaginação, ao menos escrevo sobre o que cheirei, quem
Fodi, quem me fodeu, onde caguei, até o glaciar na Noruega onde mijei,
Tive que sangrar para poder ter tinta e no processo, perdi tanto sangue,
Que deixei de saber quem sou, convenci-me que podia fazer parte, agora que
Me perdi, mas fazer parte de quê, se já nem os montes me pertencem, por ter
Deixado de lhes pertencer, infernos desolados pela ganância de pastores sem doutrina,
Pela ganância da ignorância, a que tornou o “meu” país na puta que é,
Acabaram as romarias e mal me lembro de como era a minha terra antes de partir
Para Mordor, quando regressei, tudo tomou a forma das tripas de um vulcão,
Até os lameiros desertos, os lábios desertos de sorrisos, a inocência dos
Primos pequenos engolida pelo que engoliu a minha, não sei se o tempo, ou o
Que o tempo trouxe em troca do que tirou, os cães, os gatos, amigos, brinquedos,
Sonhos e ilusões, é para aprenderes, diziam, a vida não é fácil, este ano o
Pai Natal não tem muito dinheiro, até ele é fodido, pensava o garoto com a chinela rota
Perto da chaminé, o Menino Jesus, entretanto cresceu e brincar na neve perdeu
A magia depois de se ter fodido e gelado o cu numa bebedeira nórdica,
Naquelas que acusam de responsáveis pela morte da minha submissão de acólito,
E mães da minha doce depravação de abrir pernas e corações oprimidos pelo
Tédio de viver, porque a vida só se sente quando se suja e se gasta estupidamente
E é levada pelos mais básicos instintos, como martelar uns versos
A um ritmo alucinado de excitação limite à beira violação, os dedos sujos da
Tinta e do óleo, do suma da cona mecânica que ejacula versos nos olhos que
Quiserem arriscar a sinceridade em palavras de um bruto, sem respeito pelos grupos
Fechados e pelas orgias dos escritores sérios como as pegas do seu país, terra
Pobre e mal agradecida, paridora de títulos sem prestígio, só de abertura
Fácil e cu abundante como as moedas pretas no fundo do porta-moedas, abre-te
Tu que não tens mais nada para dar a não ser a confirmação do meu poder pela
Tua submissão de cão com fome, vale o que vale, e na verdade não vale nada
Porque tudo é merda adiada, um lameiro perdido, uma macieira cuja sombra só existe
Na memória brumosa de uma tarde de ressaca, onde os dias idos, ainda nos
Músculos, agora na polpa do que foi uma medula, um cocktail de todo o esperma
Desperdiçado, ou não, em vazios, só porque se quis acreditar que ninguém morava
Lá dentro, para ser mais fácil passar e não voltar a entrar para tomar chá
Ou um copo de vinho espanhol, que se julgava, pensei que era da tua terra, se ao
Menos uma garrafa de vinho da vinha que matou o meu avô, para que vissem que
Eu uma história, um lugar onde pertenço, ou devia pertencer, apesar de incomodar
Vindimar à chuva, como o cheiro a cona debaixo da almofada da manhã, ao se acordar
Só e miserável, se ao menos vomitar antes da primeira cerveja como o Bukowski,
Mas não, toda a merda dentro a fermentar, à espera de uma diarreia de dedos
E uma descarga livre em forma de verso demasiado solto e sem respeito pelos
Filhos da métrica, poetas encartados, autorizados e respeitados pela sua
Esterilidade poética, quanto a mim, que escrevo disto, seja o que isto for
Ou não for, há mais tempo do que a maioria fodem, a poesia deve ter cheiro,
A ribeiros poluídos antes da duna que antecede a praia na infância, lixeiras
Pestilentas onde se procura o brinquedo que por engano se atirou fora, cadáveres
E valas comuns abertas nos livros da Segunda Guerra Mundial, o hálito do bigode à Charlot,
Porque a poesia quer queiram, quer não, é algo morto, feito de passagem, de
Derrotas, de injustiças, de saudades e insónias, de cães mortos, gatos mortos, amigos
Perdidos, brinquedos partidos, flores que apodrecem numa campa de cemitério
De aldeia, sem nome, é um cigarro que se consome, uma garrafa que se perde
No vazio da perdição, dois corpos que se tocaram e foi tão pouco para nunca
Mais para sempre, um horizonte poluído pelo presente, o horizonte que é o
Que os teus olhos procuram, quando deixam de conhecer a própria casa,
Quando até a janela se estranha, tão baça, serão os olhos, os olhos não,
É o que vê o que eles vêem, saco de restos inúteis do que se viveu, eu, eu.

01-10-2013

Coimbra

João Bosco da Silva

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Escatologia

Acredito na humanização dos santos e na salvação pela carne,
Acredito na necessidade do pecado para a manifestação da alma,
Acredito na morte eterna e na sua infinita justiça,
Acredito no poema rei qua nada julga e nada promete
E que virá trazer a memória aos olhos de quem lá se encontrar,
Num lugar comum separado por violências privadas e osso, olhos
Que se encontram na familiaridade do que levam para o lixo,
Acredito na liberdade do abandono da esperança e na força
Do desespero à beira da loucura sem regresso, limpa por fora,
Acredito e espero os amanheceres ébrios em comunhão com
As cinzas dos sonhos e na proximidade do equinócio do que se é,
Nu e sincero, longe das paredes da igreja e de toda a água benta
Com vestígios de esperma e outras contaminações humanas,
Demasiado humanas, oprimidas pela obrigação de um arrependimento,
Envergonhadas, porque é isso que nos separa deles,
A vergonha, um deus nunca se envergonha, acredita sempre
Que está certo, eu acredito na impressão dos seus segredos,
Na sublimação dos seus erros nos seus momentos possíveis,
Acredito no poema rei e nos sonhos que os dedos cospem acordados.

Coimbra

07-01-2014

João Bosco da Silva
Purgatório

Será que ainda não percebemos que o único lugar onde nos poderemos
Voltar a encontrar é no cemitério dos que fomos e que à noite as insónias
São gritos das nossas ausências, têm-se as mãos sempre tão cheias
De futuro, que se esquecem logo do que deixaram cair, para sempre,
Sei que te encontrarei, lá, onde também eu fiquei a ridicularizar-me,
Onde por vezes em sonhos acredito ainda ser, até que desperto e o cheiro
Dos dedos alguém estranho às memórias acabadas de desenterrar pela madrugada,
Foram tantos os livros que entretanto nos separaram, mais altos,
Esses, do que os próprios anos, anos que passaram pelos dois
E tão desconhecidos os de um do outro, tal como as páginas
Que não nos foram comuns e ainda dizemos, encontrei-te lá,
Eras tu aquela personagem, eras tu, quando tu, agora, tanto
Quanto uma personagem de ficção qualquer, criada nas páginas em branco
Da ausência, continuo a dizer-te que se escreve melhor quando
Há fome, não da que mata e faz crescer a barba, mas da que vai matando a luz,
E pede dedos escravos para erguer pirâmides aos olhos que não estão.

Coimbra

02-01-2014


João Bosco da Silva