segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Este Tempo Zombie 

Este tempo é como lamber velhos selos, usados  
Em cartas de amor para quem já morreu há muito, 
Esqueço-me de viver para me verter como um mercúrio lento e frio, 
Sobre as costas nuas de um anjo despenhado, 
Espeto a língua no ar moribundo à procura do mosto na distância, 
Da primeira lenha queimada que ilumina o nevoeiro do meu vazio, 
Mas nada, este tempo de bolsos vazios e sem vontade, 
Ter por alma um lençol sujo num quarto húmido e azedo, 
Uma sede que a vontade de mijar não consente, 
Este tempo de batidas silenciosas num esforço de levar, de levar, 
Sem lugar nenhum para onde cair, sem qualquer tentação 
Onde sujar o tédio imaculado, onde esfregar o cansaço de vazio, 
Este tempo como um relógio parado numa casa onde gente apodrece na cama, 
Frio como a chegada a Seia numa noite exausta, num carro emprestado 
Como o abraço de uma cona que foi perdendo o sabor, 
Este tempo de perfumes melancólicos de amores perdidos na vastidão de tantos outros braços, 
Este tempo dos velhos poemas escritos com a ressaca em noites de chuva 
Nos bancos de trás de carros velhos, este tempo de fim como única certeza, 
Tempo de ler Leopoldo María Panero na fronteira do abismo. 

14.10.2019 

Turku 

João Bosco da Silva 

domingo, 22 de setembro de 2019

Leoa de Madeira

De ti pouco mais tinha sobrado que aquela leoa de madeira
Que comprara em Samburo quando lá estivemos,
Na viagem entre Masai Mara e Nakuro percebi que já pouco te amava,
Tudo está acabado quando o trivial se sobrepõe à ilusão,
Pela leoa queriam a minha caneta, que acabei por dar
A uma menina desconhecida, na apresentação de um dos meus livros,
A noite anterior tinha-a passado com uma professora,
Na sua casa alugada e do que me lembro mais foi de vir-me
No tracejado de luar que as persianas lhe desenhavam nas nádegas,
Tinha uma pata colada, foi se calhar por isso que a trouxe,
Sempre tive um fraco por imperfeições, casos perdidos,
Hoje da leoa só ficou um haiku que escrevi, depois de já não estarmos juntos,
Porque um garoto que nunca conheci a deixou cair
E partiu-se de forma irremediável, assim me disseram,
Não a cheguei a ver cair, contigo foi o mesmo,
Não vi a queda e só ficou um carinho como uma leoa de madeira
Com uma perna quebrada, que também desapareceu,
Às mãos da maldade de um inocente, como o tempo.

Turku

22.09.2019

João Bosco da Silva

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Também Pensei Em Ti No Vietname 

Deixa-te ficar sossegada na tua ausência, não faças muito barulho 
Para não afugentares a ilusão na qual te tornaste, 
O que havia de mim para te dar, acabou antes de poder abrir as mãos, 
Não sei se foi a garrafa de champanhe, se a mensagem da barba, 
Quando a invasão francesa chegou, só veio enterrar a baioneta 
No peito que já agonizava, temos sobrevivo de distância, 
Nada alimenta impossíveis como a distância, 
No entanto sinto que quase estivemos demasiado próximos, 
Não sei se, entretanto, encontraste o tal amante que precisavas, 
Ou a vontade te pedia, porque sempre precisamos de uma violência 
Na doçura, morder os lábios da vida de vez em quando, 
O Outono chega e sabes o quanto isso me custa, 
Tudo me lembra o teu cabelo, as allstar sujas e o ranger 
Do soalho sob os teus passos esfíngicos, não incomodes 
O vazio que levei anos a domar, aceitar o nada como certeza. 

Turku 

10.09.2019 

João Bosco da Silva 
Vestido Azul 

There´s things I wanna talk aboutbut I´ll just let you live” 
Lana del Rey 


Não há nada mais triste que acordar com o sabor 
Da tua silhueta recortada pelo Sol através daquele vestido azul, 
Nunca saberei se também tu, voltaste a sonhar comigo, 
As tuas mãos nas minhas, antes de qualquer poesia, 
Acordar depois de termos brincado no chão da sala da casa 
Onde nunca entraste e já pouco me encontro nas fotografias, 
Eu debaixo de ti a assegurar-te que só amigos 
E da tua boca as palavras da minha vontade, 
E se te fizesse um broche, cai uma carta pesada no chão 
E acordo, um catálogo qualquer, maldito carteiro, 
Aquele bater no chão como quando li a tua última carta, 
Só amigos, e acordo, cai-me algo que nem sabia que tinha, 
Nem vi sequer o que era, as mãos nunca me pareceram 
Tão vazias, sabendo que nunca mais os teus dedos longos 
Entre os meus, quanto dedo no cu, nenhum teu, 
Acordar sempre, até ao adormecimento último, 
Com a poesia no lugar de um amor no qual só os sonhos acreditam. 


Turku 

10.09.2019 

João Bosco da Silva