sexta-feira, 25 de outubro de 2019

A Sede da Última Cerveja Depois do Tasco Fechar 

Não digas que não te amei, que ainda acordo com aquela noite de Novembro 
Na boca, como uma ressaca de demasiados cigarros, chupados como quem 
Quer encher o vazio com fumo, naquela noite esperavas-me tu 
E aquela professora de história, ainda não tinha espatifado o carro 
Com o vinho do porto, já era tarde e não me atrevia ir à máquina automática 
Comprar preservativos, pedi no café ao meu amigo que só tinha um, 
Mandei vir uma mini e decidi enviar-te uma mensagem, a ti, 
Chegas pouco depois, tomas um café e vamos dar uma volta, 
Que é como quem diz, foder nos bancos de trás no largo da feira, 
Primeiro fazes-me uma mamada e engoles tudo, depois lá dou uso à amizade 
E montas-me com sede até me fazeres vir outra vez, impões-me o carinho 
Pós-coito e dizes que é o teu momento favorito, soube-me bem cheirar 
O teu cabelo húmido, ter-te nos meus braços, quase me soube melhor 
Que ter o teu corpo magro empalado pelo meu caralho, levo-te a casa, 
Ali perto, envio uma mensagem à professora e fodo-a no adro do santuário 
Sem preservativo, que se foda, como vez, amei-te, escolhi-te, 
Mesmo depois de anos antes me teres trocado por quem com muita 
Dedicação de dedo, te ensinou a música do grelo espinha acima, 
Que nessa mesma noite, entre a mamada e o salto no espeto, 
Me ensinaste, a tua mão sobre a minha a marcar o passo até ao espasmo, 
Não digas que não te amei, porque se a amizade é dar o único preservativo 
Numa noite fria e vazia de Novembro, o amor é usá-lo, mesmo que depois,  
Algo tão incerto como a história, se tenha que penetrar sob estrelas dançarinas,  
Com a vontade de abismos e a sede da última cerveja depois da hora do tasco fechar. 

Turku 

25.10.2019 

João Bosco da Silva 

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Poema Derrotado 

À tua frente a possibilidade do melhor poema, 
Porque da vida já pouco esperas, é só pousar os dedos 
Na ordem certa, mas o que os move é a mesma lesma 
Que passou, só a certeza brilhante daquele visco seco, 
Nas ervas do caminho outonal, nada resta dos bagos 
Dos verões passados, nada há a destilar a não ser 
O ódio e o vazio, o amor é um vinagre com que 
De manhã se lava a boca do gosto dos sonhos 
Ridículos que se vão pegando às manchas da almofada, 
À tua frente um espelho, velho, sujo, que come mais luz 
Do que a que reflecte, o poema possível a quem sacudiu 
Amigos com o tempo e ficou na companhia do pó 
E do cansaço que mil sonos não curam, a certeza silenciosa 
De todos os sorrisos azedos, sob os dedos que não tocam, 
Passam, deixam a despedida das moscas antes dos dias frios. 

14.10.2019 

Turku 

João Bosco da Silva 
Este Tempo Zombie 

Este tempo é como lamber velhos selos, usados  
Em cartas de amor para quem já morreu há muito, 
Esqueço-me de viver para me verter como um mercúrio lento e frio, 
Sobre as costas nuas de um anjo despenhado, 
Espeto a língua no ar moribundo à procura do mosto na distância, 
Da primeira lenha queimada que ilumina o nevoeiro do meu vazio, 
Mas nada, este tempo de bolsos vazios e sem vontade, 
Ter por alma um lençol sujo num quarto húmido e azedo, 
Uma sede que a vontade de mijar não consente, 
Este tempo de batidas silenciosas num esforço de levar, de levar, 
Sem lugar nenhum para onde cair, sem qualquer tentação 
Onde sujar o tédio imaculado, onde esfregar o cansaço de vazio, 
Este tempo como um relógio parado numa casa onde gente apodrece na cama, 
Frio como a chegada a Seia numa noite exausta, num carro emprestado 
Como o abraço de uma cona que foi perdendo o sabor, 
Este tempo de perfumes melancólicos de amores perdidos na vastidão de tantos outros braços, 
Este tempo dos velhos poemas escritos com a ressaca em noites de chuva 
Nos bancos de trás de carros velhos, este tempo de fim como única certeza, 
Tempo de ler Leopoldo María Panero na fronteira do abismo. 

14.10.2019 

Turku 

João Bosco da Silva