quinta-feira, 29 de maio de 2014

Naquele Tempo

Naquele tempo os quartos eram ainda mais escuros e os dias mais vazios,
Mas havia uma força de vontade que rompia a sujidade das ruas e dos olhos
Que as corrompem, até ao autocarro da meia-noite, havia tempo para mais
Uma violência consentida, polvilhar o ar pesado da solidão com o cheiro a sexo e álcool,
Um pouco de fumo dos cigarros fumados na letargia entre a ejaculação
E um novo tesão, assim eram alguns dia naquele tempo, o ar tinha outra massa,
Apesar do mesmo, os pulmões como a alma, habituaram-se, criaram tolerância,
Pode não haver ar pesado o suficiente, um dia, nem o excessivamente doce
Metálico ar africano, carregado de promessas de extinção e tempestades evolutivas,
Não será suficiente para se inspirar até às falanges da alma, já não se trata da inocência,
Já naquele tempo se fossilizava, a religião já se tinha trocado pelo desengano,
Era aquela capacidade de Caeiro, cada vez a primeira vez, tudo novamente outra vez,
Com gosto e entusiasmo, mesmo que o Sol químico, um truque de recaptação inibida
Para afogar o cérebro em felicidade, os orgasmos arrancados à força de lábios abusados
Mas satisfeitos, não estava habituada, a marca do anel ainda no dedo, branca, como as
Calças à espera e as cuecas no chão, molhadas com a latência de uma paixão,
Naquele tempo ainda se aconselhava a evitar as paixões e era o mais inútil a fazer,
Como tudo o que é sincero, as calotes glaciares estão a descongelar ao dobro da velocidade
E o mundo pára para ver um famoso nu, enrolado à namorada, naquele tempo ainda se tinha
Fé na humanidade, o futuro parecia-se com o que se espera do futuro, amava-se com
Um certo desprezo, agora todos os dias sabem a cinzento e pouco interessa, seja o que for,
Talvez um eco no quarto fechado ao se passar ao lado, um eco dentro enquanto se caminha
Em direcção à distância, onde alguém menos quem naquele tempo tinha ainda um par
De sonhos no bolso, agora é demasiado tarde para o que quer que seja, a folha de papel está
Irremediavelmente arruinada, mas como é a única, vai-se escrevinhando, sem cuidado, como
Se toda a vida um papel de rascunho. O futuro não é lado nenhum, é só estar longe daqui.

João Bosco da Silva

Porto


20.05.2014
Roupa A Secar

A farda seca no estendal de parapeito, ela poderá estar em casa,
Ou numa magra folga, se calhar foi à aldeia ver a mãe que não fala com a avó,
Ou está em casa só, deitada na cama, imaginando encontros com quem lhe
Tocou de leve o passado, com um olhar, uma palavra ou outra e pouco mais,
Nada de promessas, ainda sente o gosto daquelas tardes de início de Verão,
Trancada até à noite com aquele corpo que parecia nunca se saciar do dela,
Se calhar é uma daquelas tardes ainda, e ela recebe sedenta o prazer
Que lhe impingem na carne, diz que nunca teve um orgasmo, mas mesmo assim
Gosta de foder como se não houvesse amanhã, na rua veste-se de timidez,
Mas o olhar trai-a sempre, os homens despem-na tantas vezes, se calhar por isso
A farda no estendal, a secar da saliva, como o esperma na sua pele depois
De lavar a alma com a certeza da carne, ela sabe que não passa daquilo,
Por isso abre-lhe os lábios e derrete-se toda, arrisca-se a um futuro comprometido
Apesar de se fingir sem ilusões, lá no fundo deseja uma concepcão que prenda,
Que a livre das calcas da farda, mas para isso tem que encontrar algo mais
Estável que o desejo e o prazer limpo de outros interesses futuros,
Pode estar à beira rio, no aniversário de alguém, a frisar o cabelo com o suor
Enquanto apanham morangos do outro lado, ela toda famas e olhos,
No frigorífico o mínimo para ir enganado a fome, ou entreter entre coitos,
O mais certo é estar a trabalhar, com a vontade de outro lado, pensando
Em férias num lugar que imagina da boca dos outros, ou das fotos que lhe
Obrigaram a engolir, como submissão, deve estar a trabalhar, para acabar
Mais um dia numa casa alugada, com uma renda que lhe leva metade do salário,
Encerrada num quarto quase privado, não fossem as discussões constantes
Dos vizinhos, acentuando mais a sua solidão, mais um dia para menos um dia,
Após dia, todos os sonhos adiados, quem se perdeu longe, quem se dá
Sempre ao lado da vontade, vai-se andando, vai-se quase sendo, lavando a farda,
Sujando a farda, acumulando dias inúteis para nós mesmos, sepultando-nos
Até nada mais restar, do que roupa esquecida no parapeito de uma janela,
Para a curiosidade mórbida de quem ignora a cor dos nossos olhos.

28-05-2014

Turku


João Bosco da Silva

domingo, 18 de maio de 2014

Espasmos Matinais Nas Circunvoluções Após Sesta

Desenham-te como um pintor cansado dos boulevards pinta uma paisagem bucólica,
Imaginando nas cores a dureza do trabalho e o cansaço dos dias, a inocência que
Se julga por trás daquela gente, fascina-os a tua clareza perante a opacidade da vida,
És apenas uma fera  num circo de cidade, uma besta amansada pelas correntes
Do esperado, alimentam-te com ilusões como se alimentam bois com palácios,
E consomem-te os sonhos na esperança de uma cura para o envelhecimento
Do convencional, cultivam poetam como se treinassem papagaios e usam o teu
Passado como um dicionário de memórias, interpretam-se enquanto dormes
E esperam que a carne te seja limpa, mesmo sabendo que gostas de chafurdar no
Desespero e na solidão das noites alheias, prometem-te um pedaço de betão
Em troca do teu olhar e julgam que possuis uma sabedoria latente, como a dos
Animais, mas sem possibilidade de expressão, ladras à noite porque te sentes menos
Só nas horas dos cães vadios, não te deixes amansar, não lhe cedas a violência,
Vive como quem mergulha ignorando a profundidade, não te deixes pintar
Como um elefante, sê africano, evita as procissões e procura-te menos onde não estás,
Eles apenas te chuparão até ficares seco, vazio, um hipócrita deslumbrado pelo
Espelho do tempo em que ainda eras bruto, um animal com palavras toscas
E puras, não te deixes encontrar, ou acabarás com uma geometria a olho nu, num
Dedo qualquer, quando a tua perfeição e dureza se encontram na tua estrutura molecular,
No sumo primeiro, antes de azedar, és o musgo verde e húmido numa fraga de granito,
Não te deixes apanhar para seres pisado por figurinhas de presépio lascadas,
Bebe vinho e grita-lhes as verdades que eles querem esconder nas evidências.

Turku

18-05-2014


João Bosco da Silva

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Parafilias Bucólicas

Tem-se medo da inocência, de olhar e ver apenas o momento bucólico,
Sem a adição do que se sabe, por trás, por sabe-se lá que dinheiro,
Objectos ou favores ridículos, a abrir as pernas para os velhos ricos de idade e vício,
Prefere-se o burro e as casas arruinadas pelo esquecimento, a distância
Das árvores que secaram ou arderam, do que o ruído que contamina o olhar
De criança, vê-la como antes, com indiferença sem maldade, ver por ver, sem adição
De culpa ou cicatrizações forçadas de segredos abertos para os lados do rio de baixo,
Onde tantas histórias correm e quase tantos tomates se correram,
Desde épocas mitológicas, com o primeiro pó do ano e a água ainda fria de Abril e Maio,
Toda a gente cresceu para se engolir em desejos incompletos, ser para olhos indignos,
Revelar-se na escuridão ou nos favores das velas e nos cantos de que toda a gente fala
E ninguém vê, custam-me tanto os pecados dos outros, especialmente quando tento ser limpo,
Ou sincero aos olhos côncavos dos viciados na tradição hipócrita, em incenso, pão rançoso,
Absolvição e histórias da carochinha para embalar, fazer medo e impor respeito
De luto e lenços na cabeça, o cão à frente dela, o de quatro patas, o de calções atrás,
Sem perceber o cheiro do que acabou de se despegar dela há umas horas,
Não há nada a fazer, tende-se para o lixo, para a porcaria, princesas rasgam os vestidos
A caminho dos sonhos impossíveis, deixam-se penetrar pelas vontades sujas de poder,
Pelos desejos fáceis, por ilusão, fraqueza, também é só corpo e não se gasta,
Só para se sentir, nem que seja nojo, dor, algo diferente, a primeira vez todas as vezes,
Nem que seja um arco-íris com as cores da merda, algo novo, o tédio é o nosso pior
Inimigo, passa-se a vida à procura de primeiras vezes, chega-se perto do fim, ao limite,
Não há almas higiénicas depois dos dentes de leite, tudo se perde com o final da tarde
E a primeira absolvição dos pecados, que nem se confessaram, também a inocência se
Absolve como se fosse o tal pecado original, um banho de alma dado por um hipócrita maior
Resolve todos os problemas de consciência, todas as dúvidas de existência, para sempre,
Até à próxima, no fundo, espera-se que a carne se revele, tão suja quanto possível,
Há algo de erótico na culpa, uma parafilia reciclável, usa-se o sexo como cura para o vazio
Que também aumenta, procura-se calor no impessoal e higiénico, sonhando-se com
Esperma, suor, saliva numa boca familiar, espera-se que o Sol se ponha e o frio chame
Para a hora de jantar, a cura pelos copos e a companhia inócua de garrafas vazias,
Esquecimento como verdadeira salvação da alma, como forma de regresso aos olhos
Dos primeiros poemas, limpos de encontros mascarados e decadência gratuita.

Turku

09.05.2014


João Bosco da Silva

sábado, 3 de maio de 2014



Aparição en Arlequin

Quando estive pela primeira vez frente a frente com o Paul en Arlequin, senti algo como
Se uma aparição, vi-me, não aquele miúdo de cabelo castanho-claro, numa foto, agarrado
A um ramo de uma árvore para os lados de umas termas esquecidas, com o mesmo olhar vago
Do Arlequin, mas vi a idade que tinha, já não era o miúdo que reproduzia em folhas de papel
Cavalinho o quadro do Picasso para o trabalho das aulas de Educação Visual no quinto ano,
Era todos os pecados que acumulei até então, toda a sujidade que lavei das mãos desde então
E senti-me traído, por mim mesmo, traída a minha inocência, ali, em frente ao original,
Senti-me quase envergonhado por não ter dez anos ou menos, porque o que merecia
Aquele reflexo, era o miúdo de cabelo castanho-claro a cobrir-lhe a testa e olhar inocente,
Sem sinal de maldade, solene, mesmo que com roupa de palhaço, senti-me eu o verdadeiro
Palhaço, que trocou a pureza, a inocência, pelo barulho do demasiado a confundir-se com lixo,
Reparo mais uma vez que a sua posição podia ter sido outra, como o encontro podia ter sido noutro
Museu, mas foi ali, no Ateneum de Helsínquia, inesperadamente e fiquei como um pequeno
Alberto Soares ao se ver e não se reconhecer, ao me ver e não reconhecer o que se reflecte
No quadro, naquele quadro tão familiar, pintado noutra vida com lápis de cor e mãos pequeninas.


03.05.2014

Turku


João Bosco da Silva


Distração E Cabelos Brancos

Quando foi que envelheci tanto, nem dei por nada e agora vejo os amigos do meu pai
Na falta de vontade que tenho de continuar a parir cabelos brancos, mais cansaço e uma
Valente desilusão a cada sonho que passa e deixa apenas um enorme vazio, vejo-me
Naquelas fotos, tão seguro, tão homem, jovem, agora jovem, porque eu daquela idade
E eu não posso ser grande como quando via aquelas fotos numa outra vida, profunda,
Enterrada no pó dos dias, na lixeira de tantos momentos, mesmo os gloriosos, hoje composto
Para fertilizar a morte, apestar o envelhecimento, eu que vivi tudo em tão pouco tempo
E nada fiz a não ser gastar sem gasto dar sequer, só os órgãos sofreram, em nada amadureci,
Saltei logo para o apodrecimento, só estraguei, a vida deve comer-se verde ou nunca se terá
Vontade nos dentes, agora isto, o medo a trazer poemas, cada vez mais parecidos entre eles,
Encostados uns aos outros, debaixo de uma ponte num dia de tempestade, querem tomar forma,
Ser vida, algo que se adia por se saber que na verdade impossível, por prazer, ejaculaste nos
Olhos das verdadeiras oportunidades, negaste o amor dentro da espectativa do brilho do ouro
E levaste banhos orgânicos raros em amnésias que não consegues esconder, quase foste o pior
Que podias ser e nunca estiveste tão próximo de ser feliz, mas sempre julgaste que havia tempo,
Que ainda era cedo e agora, ninguém tolera o barulho que fazes dentro de ti mesmo,
Deixaste cozer demasiado, agora não consegues engolir-te, eu digo-te quando foi que
Envelheceste tanto, foi enquanto viveste sem olhar muito para os outros, o espelho que
Eles querem ser de ti, as barrigas dos outros, os cornos dos outros, as traições dos outros,
Os empréstimos dos outros, os divórcios dos outros, os filhos dos outros e os que não são deles,
Os sonhos que os outros já não revelam, porque se tornou ridículo, sonhar, só relembrar é
Permitido, entre umas garrafas de vinho, os direitos que os outros julgam ter, os deveres que
Os outros te querem impor, a forma como querem que te vistas e as máscaras que querem que  uses para
Pareceres bem, apesar de mentira, os erros que querem que cometas porque é o que está certo,
A cor do cabelo dos outros e as suas testas a tomarem conta da imaginação, não vale a pena olhar
E envelhecer a vida, já se morre o suficiente na morte, distrai-te outra vez, eles passam sempre.

01.05.2014

Turku


João Bosco da Silva


A Macieira Dos Insones

Disseram-me que arrancaram a macieira porque secou, também eu sequei e nunca ninguém
Me conseguiu arrancar as raízes, mesmo que tenha sido muitas vezes estrangeiro em casa
E preferir a solidão do granito e o desolamento das ruínas dos verões quando a cinza já
Assentou à força da chuva, o lameiro tem tão pouco do que trago, parece mais pequeno
Apesar de terem derrubado a cerca que o dividia, enterraram um poço, o cão já se tinha
Lá afogado, de certeza também a capacidade de ser feliz com um bocado de pão caseiro
Com tulicreme que a tia preparou, a inocência como o amor, cega, mas uma cegueira por
Ausência, a cegueira de quem tem as mãos vazias e está cheio de sonhos, a cegueira
De quem confia na vida como na mãe e é para sempre e capaz de tudo menos de traição,
Cega para a maldade, com os sentidos livres e limpos para receber a felicidade, ou apenas
Estar e ser, ignorando que se é, aquela macieira em cuja sombra me deitei e senti
A novidade da erva seca nas costas como a primeira vez em que li Walt Whitman, frescura
Viva que mais tarde se transformou no cheiro a mijo cristalizado das folhas amarelecidas
Pela experiência e o tempo, sentir o mesmo de forma inversa ao sentir o aroma azedo
Da cerveja estragada no fundo das garrafas quase vazias e a companhia pouco simpática
De outras barbas, eu quase, sentado a consumir-me em copos de plástico, tremendo com as
Chamas das velas ao vento das saudades e uma quase hipocrisia por falar sozinho com a
Memória de quem, espero, me dê o adiamento e a força inata, já que nasci de pouco
E para quase nada, para acabar numa noite de luar, longe disto tido, no lameiro
Daquela macieira onde me arrancaram, hoje tenho amigos poetas, pouco me conheço,
E tenho dias em que quando acordo, demoro horas a encontrar-me por entre os papéis
Manchados pela chuva e pelo carvão do sofrimento adiado pelo medo de mais um
Momento inútil e perdido, para sempre, ao lado do lugar onde esteve a macieira, para nunca
E até sempre, numa garrafa de vinho bordeaux, lá para os lados de Django Reinhardt e dos tios
De França, porque tantas vezes o que procuras é apenas o inesperado, como o sabor daqueles
Gauloises à beira do rio da aldeia, de madrugada, com os pés cheios de vinho tinto e língua
Destravada, pronta para confissões lançadas para a fogueira purificadora da felicidade.

Turku

30.04.2014


João Bosco da Silva

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Todos Os Gatos

O gato está vivo ou morto, morto e vivo antes de se abrir a caixa, nunca morto-vivo,
Livre arbítrio, dizem, quando a escolha neste universo terá que ser a que foi feita, será feita,
Ou o universo seria outro e não este, o corte no dedo como tinha que ser e não a lâmina
Ao lado da dor e do sangue, os nascimentos e os tiros no escuro assassinos de nadas,
Toda a sorte e o infeliz azar, irmãos prováveis, copo meio cheio e meio vazio e a cicuta a descer,
Sempre tão mal recebidos os infortúnios, só há coisas que merecem um, só a mim, quando
Afinal, tudo a quem tinha que ser, um espelho contra espelho, com infinitos reflexos, todos
Diferentes, um corredor do comprimento que atribuem a deus, no entanto o nada é
Proporcional a tudo e a música é tão maior do que a distância física que de olhos fechados
Por dentro percorremos com pernas de ilusão, uma viagem sem se sair do mesmo crânio,
O gato roça na perna, tem fome, está vivo, aqui, mesmo não estando, o resto são gatos
E não gatos, vivos e mortos, numa dependência de olhos para decidir em que paralelo.

24-04-2014

Turku


João Bosco da Silva

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Rimjobs E Buracos Negros

Somos tanto o mesmo, a mesma estrada a caminho da aldeia que ficou por visitar
E todas as promessas mentidas, necessárias ao alívio e ao consentimento da carne,
A consanguinidade atormenta tanto quanto atrai e fascina a familiaridade do pecado
Em casa, o trigo pronto para ser ceifado e a curiosidade verde longe do amadurecimento
Podre dos dias em que se é, e o mundo encerra-se num espaço restrito entre suor
Excitado e o muco de segredos que toda a gente confessa e limpa com hóstias
Coladas ao palato, desejando logo voltar a sujar-se com um rimjob peludo,
Só o que passou interessa e é o que somos, o resto é arrastar uma tentativa vã de
Romper com o limite do que se é e ser livre no aprisionamento de um outro,
O futuro é apenas onde não se está, mora ao lado do desejo, num fim de verão eterno,
Regressar à carne que um dia nos abençoou com a libertação de nós próprios
Parece um traição injusta à memória, confrontá-la com as medidas reais do que com
O tempo e a nostalgia tomou a forma de um sonho, mas que fazer quando fechou
Aquele café nas nossas costas e ficou uma insatisfação verde no regresso impossível,
Que fazer quando se torna impossível encontrar pedaços de espelho nos livros que se lê
E tudo aborrece por repetição ou tolerância, que fazer quando ardem as saudades
E se fica hipnotizado pelo fascínio da despersonalização das chamas nas circunvoluções
Onde se escondem os sabores reais do que ficou perdido num tempo por onde se passou,
É obrigatório morrer, como passar, o big bang não trouxe nada de novo a não ser
A possibilidade de uma coisa de cada vez, em vez de tudo no mesmo lugar ao mesmo tempo,
A nossa maldição é aprisionar pedaços de tempo num espaço demasiado pequeno,
Dizem que os neurónios e as suas sinapses se assemelham a um pequeno universo,
Não admira sentir-me tantas vezes perdido em estrelas moribundas e buracos negros.

21-04-2014

Turku


João Bosco da Silva

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Montanha-Russa

Depois de tão pouco, o invólucro aberto do preservativo continua onde os olhos o deixaram,
Intocado, há lugares que até o vento despreza, onde as sombras reinam e são memória,
Ou aqueles minutos antes de se adormecer por completo e quando os melhores poemas
Se tecem para ficar esquecidos na primeira mosca da manhã, não interessa e repita-se
Que as caras barbudas dos quadros já mudaram mais que o desespero dos suicidas,
As esculturas dos amigos estão tão cansadas de olhares desconhecidos que desejam
Chuva ácida e a morte eterna no anonimato de um calhau à beira de um rio de aldeia,
Estás perdido, há anos que estás perdido, mas como se pode alguém perder dentro
Disto, a não ser que seja uma perda de tempo, que a vida acaba por provar ser, não interessa,
Há inutilidades que permanecem inalteradas para nos lembrar que a imortalidade nem sempre
Se encontra na arte, na fama, no barulho, em lado nenhum, como mãos mortas em cavernas
Nunca descobertas para os lados de uma país qualquer da idade dos outros todos,
Resta sonhar enquanto se dorme e esquecer o resto dos dias por o que se acabou de parir,
Apostar tudo na incerteza, porque o tudo é tão pouco quando se consideram os fracassos
Desde que se deixa de acreditar que o Sol nasce para aquecer o menino e que o fogo
É para a mãe fazer a comidinha ao menino, um futuro possível impedido, ao lado do rio,
O vestígio de uma mortalidade sem precisar do corte da marcha-atrás, ali, ainda, depois de tão pouco.

Turku

10-04-2014


João Bosco da Silva

terça-feira, 25 de março de 2014

Golden Axe

Uma tosta mista às quatro da tarde à beira maldição e o que queria mesmo era jogar
Golden Axe até aos olhos em bico, cinquenta escudos, era tão barata a felicidade,
Longe de putas e outras vendidas, hoje tão distante, não me vejo sorrir em lado nenhum
E o meu nome é ignorado como tudo o que é comum e silencioso, vendia a alma por
Um nome barulhento e um espírito ordinário, nem sei se hoje há jogos de futebol,
Nem li o último livro daquele que dizem ser grande poeta, fecho-me e ouço cá dentro,
Além dos ecos de todos os gemidos em forma de promessa, a música do Final Boss,
Tão longe se chegou há tantos anos para agora isto, uma tosta mista às quatro da tarde
Numa cidade que me desprezou tanto quanto o que me apercebi dos dias cinzentos,
Não falhei nem um, mesmo assim, não fui batido, meto mais cinquenta escudos,
Continuarei a saltar em cima da merda e a salpicar burgueses e donos dos direitos,
Engolirei todo o nojo e seguirei em frente enquanto espero, um dia, diz quem lá está,
Eu escondo-me na fome e na solidão, em páginas amarelecidas e no cadáver dos sonhos
Cobertos por pó e indiferença, sou o undertaker dos meus próprios desejos, enterro-me
Na solidão dos outros e trago comigo os murmúrios da única sinceridade de que são capazes,
Agora chega, isto não é Earls Court, lá fora está Sol e tudo é o fim de alguma coisa, vão-se
Acumulando pequenos-almoços tardios como poemas indigestos, vamos a mais uma tentativa,
Menos cinquenta escudos, o gordo tombará e o machado será dentro dele entre tripas e
Todas as palavras que calará, os melhores poetas são os que calam quando têm mais que fazer.

Coimbra

20/03/2014


João Bosco da Silva
Chá Verde E Bolachas

Sonhei contigo e com o teu imaculado desprezo pela vida, senti meu o teu desespero
Iluminado e gritado por mil e uma alienações anarquistas, até me sorriste, como só
Tu conseguias fazer, rasgar da melancolia um esboço de felicidade, tu todo dentes,
Demasiados dentes na parede e as palavras a escorrerem de volta onde já não moravas,
Sonhei contigo e escrevo-te ao Sol da tarde, apanhei medo às auroras, as madrugadas
Encerram todo o mal dos dias, embriões metálicos à espera da desculpa do azar ou uma
Distração da sorte, agradeço-te a presença nos dias cinzentos e nas noites claras e dou-te
A razão, aqui só se dura depois de uns anos e a loucura é a própria vida, sonhei contigo,
Um morto, eu um pé atrás, tímido na medida dos impossíveis, na sombra do buraco
Que vou vivendo e ainda esperam que caía, as toupeiras, é lá que te encontro, na memória
Preenchida por carências básicas, sabes, eu também não me interesso, mas a minha música
Morrerá antes de mim, já o mijo secou todo no que um dia conquistei e já não consigo
Fingir mais, a pele de camaleão avariou naquela noite em que acordei e me vi com os olhos
Dos outros, era um espelho ridículo, tu foste a cura para todos os espelhos, irrepetível,
Um Sol amargo numa vida que toda a gente ressente por saber lá no fundo, não a merecer.

Torre De Dona Chama

15/03/2014


João Bosco da Silva

terça-feira, 11 de março de 2014

Noite De Poker

Tudo ficou naquela noite de poker, jogamos a fósforos,
De certeza que hoje já todos perderam a cabeça,
Quase tantas vezes quantas as vezes eu perdi a minha,
Não me lembro quem acabou por ganhar, sei que eu perdi,
Tenho agora as mãos cheias daquela noite e todas as suas
Possibilidades gastas nos dias que me afastaram dela,
Uma noite onde se encerrava um novo caminho, azul, de luz,
Escolhi dormir sobre a ressaca na segurança de uns dedos limpos
No primeiro Sol quente da manhã, e hoje sou apenas o que os
Pés me andaram, ou onde os pés me trouxeram, aqui, longe
Do café onde engoli em cerveja o arrependimento do que
Não mordi com a mesma vontade com que reescrevi toda a minha
Vida pelo filtro de um passo que ficou por dar, uma dentada,
Na verdade, menos uma foda, menos uma foda das muitas mais
Que ficaram por dar do que as que foram dadas, imitação de
Poeta com menos vontade de viver do que uma cabeça no forno,
Corta-se na abdicação de noites e sonha e exalta os curtos
Pecados que chocam na sinceridade os hipócritas fazedores
De cornos para si mesmos e para os amigos de bater nas costas,
Ficou tudo por ali e agora dizem-me que poderia ter sido eu,
Mas fui eu, eu que fiquei à porta dos olhos da vontade,
Agora olho e parece-me que fiz mal em não trocar a vaca
Pelos feijões mágicos, fiz mal, fiquei sem fósforos e a caminho
De mais uma para nada, mas o vazio maior da minha companhia sem
Os ecos dos gemidos que aquele que poderia ter sido, hoje
Provoca na mesma língua que a minha, mas sem o ser, perde-se
Sempre que se nega à vontade todas as possibilidades de um erro
E assim, o erro revela-se com todas as incertezas pelo durar fora.

19-02-2014

Coimbra


João Bosco da Silva
Insónias Em Garrafas Vazias

Ninguém acredita que como tapas às quatro da manhã com muita cerveja
E o Hemingway a medir o peso dos seus tomates com unidades de coragem
E machismo, eu ganho-lhe sempre, estou vivo, tenho o tomates cheios
De ressentimento e passo pela pior guerra de todas, a que travo todos
Os dias comigo mesmo, nem quando durmo tenho descanso, quem diria que
Um puto tão sossegado, engulo mais uns goles, deixo garrafas espalhadas
Pelo caminho que ninguém lembrará, morto, tudo, até a coragem, os
Tomates mais secos que o bacalhau da Noruega, por isso invejo a barba
De Dostoievski ou a de Whitman, enquanto a verdade fermenta na forma
De quem teve uma guerra mais íntima e todas as noites tinha a morte
Nas mãos, eu estive lá, naquela carne rejeitada pelas guerras, sem
Amor, mentira para roer até a fome desistir também, traições contadas
Como se possível também nos olhos reais, há muito que fica por dizer
Por pena, mas mais fica por dizer por medo, toda a gente sabe que
A maioria dos heróis nunca o foram por falta de testemunhas, durmam
Todos os génios enquanto todo o armamento dorme na companhia de
Toda a energia potencial e o medo de falar em público, leva o
Cheiro de uma cona nos dedos, ou a certeza do cheiro depois da
Apresentação da alma dissecada, para poderes dormir sem medo no
Teu esperma derramado no granito irmão do que me pariu, longe de
Todos os sonhos boreais, onde se espera o degelo como a vida.

19-02-2014

Coimbra


João Bosco da Silva

quarta-feira, 5 de março de 2014

Sobre O Poema

O poema, o poema não interessa, o importante é o percurso até à vontade do poema,
A vida consumida que dará carvão para poder surgir o registo do que ardeu, do que
Se sacrificou para poder existir na forma do que pode ser absorvido pelos olhos estranhos,
E digerido de uma forma sempre diferente, uma digestão inversa, entropia de pernas
Para o ar quando se lê, se recria aquilo que o poema se torna e é, não o poema, mas
O que o poema é nos olhos alheios aos dedos de quem o escreveu, o poema, esse,
Sozinho, que se foda, são palavras e as palavras não interessam, não sem o que lhe
Dá razão de ser, não sem o que as suporta e justifica, como o poema, sem os ossos,
E a carne e o sangue e o esperma e merda, não interessa a ninguém, a não ser a
Corpos vazios como as palavras vazias, alimentados com teoria e com a boca tão seca
De outras salivas, com os dedos manchados apenas com tinta, olhos grossos por terem
Visto a vida a poucos centímetros e cheios de certezas de cabelos brancos não merecidos,
O poema, o poema não interessa, mostra-me o que o trouxe cá, isso sim, me alimenta.

06-03-2014

Coimbra


João Bosco da Silva

terça-feira, 4 de março de 2014

Noiva De Vermelho

Tu és mais, eu
consegui ser
esquecimento.

Ela casou-se de vermelho, houve sinceridade na cor, com a naturalidade de uma segunda vez,
Desta, quem sabe, mesmo do admirador de hóquei no gelo, a primeira filha também de
Vermelho, mas inocente, da idade da que poderia ser minha, de vermelho como os lábios
Da mãe naquela manhã fria de Primavera cinzenta, depois de um café no restaurante
Da bomba de gasolina, a empregada a perguntar-me se queria mais alguma coisa, não obrigado,
Só estou a fazer horas para ir dar uma foda encomendada, numa manhã húmida, as florestas
Pântanos acesos, um dia perfeito para, trazes os preservativos e eu a manta, se estiver Sol,
Seco, fodemos na floresta, tenho mesmo que te foder, dizia vestida de branco, dizia ao Sol
À beira do lago Saimaa enquanto emborcávamos uma cerveja e falávamos de pouco e nada,
Além da necessidade de termos que foder, como se fosse algo que se tivesse que comer
Por estar quase a chegar ao fim o prazo de validade, ainda trazia o cheiro a Paris entranhado
Nos poros, talvez fosse disso, tenho mesmo que te foder, temos que combinar, dizia com
O noivo excitadíssimo com o mundial de hóquei no gelo, não me lembro em que país,
Viva o amor e os vestidos de noiva vermelhos com filhas duvidosas com os olhos da cor de
Outras possibilidades nascidas em pântanos e contas de cabeça apressadas pelo medo de,
A dar quase certo, quatro, cinco dias, como é possível, foda-se, será, furaria ela a negação
De além futuro, mas não, nunca o contrário, nem uma semana e já estava a receber
Ejaculações do noivo, ainda devia cheirar a sexo e latex no carro dele, cheirar a pressa, a dela,
Deixa-me provar-te, não, quero só que me penetres, entesa-me com a sumo a escorrer-me
Já pelas virilhas, salta-me em cima e parece um cavalo desesperado pela meta,
Sou apertada não sou, sentes como estou molhada, nem a paisagem se consegue apreciar
Com tanta pressa, a cerveja, depois de horas na floresta, escondido dos olhos do auxílio depois
Do pagamento do karma em forma de lama, já metabolizada, o útero já esquecido do latex
Dentro do carro do noivo, não quero preliminares, quero que me entres já, baixando as cuecas
Juntamente com as calças, e eu um excelente linguístico, apreciador de humores secretos,
Montou-me desesperada por um vestido de noiva vermelho, imagino o dia feliz, com Sol,
Como o que acabou por vir à tarde, depois de me ter vindo para um saco vazio, ou não sei,
Já com a pequena capaz de levar as alianças, as fotos no anoitecer tardio de Verão, daqueles
Longos sem chegarem verdadeiramente ao limite da escuridão, será que ela sabe, não interessa,
Está tudo atrás, tudo pela janela fora, ficou tudo dentro, seja no interior estéril de um preservativo
Integro, seja no útero infiel com um sorriso pálido de ninfomaníaca, tudo o que é real e
Sincero é o dia de vermelho, a felicidade mostrada no momento e na cabeça dele,
Nem um sinal, só eu e ela a visão dos seus cornos, quando ele o inocente, e o que é
Um momento, uma ideia, não estamos para abdicar, cumprir e sacrificar o desejo
E já se sabe que o desejo sabe sempre melhor quando vermelho, vestido de vermelho,
De vestido vermelho, não com as calças de equitação, mesmo, calças de equitação,
Umas cervejas e um pacote de bolinhos típicos, depois de muito tempo na floresta
Pantanosa, com os tomates vazios, com as calças novas e a camisola que a mãe
Tinha enviado para o aniversário, não um vestido vermelho, o sangue do mês,
Impossível, será, nunca o saberei agora, tudo camuflado por uma família feliz
E pela minha Psicose de Karsakov, ou não, sempre tomei as minhas vitaminas
Do complexo B, não é Buk, ao ver as fotos do casamento penso, será que ainda é capaz
Daquela manhã, quando fecha os olhos num dia de vontade ou numa noite de sonhos
E remorsos ou saudades, provavelmente só os meus dedos são capazes de recordar o que
A minha vida tocou nas vidas dos outros.

13-02-2014

Torre de Dona Chama


João Bosco da Silva

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Comparação Da Dimensão Do Espaço Depois Da Subtração Da História

“You can´t escape the past in Paris, and yet what´s so wonderful about it is that the past and presente intermingle so intangibly that it doesn´t seem to burden.”
Allen Ginsberg

Tens razão quando dizes que Montmartre é como a aldeia do meu pai, mas a aldeia do meu pai
Sempre comeu e bebeu  o que o suor e a terra lhe deu, lá se plantava e lá se colhia, em Montmartre
Há uma vinha cujo vinho quase ninguém prova, mas tanta gente conhece e viu, não me parece
Que comam as heras que crescem na paredes das casinhas, nem vi galinhas a correr pelas ruas
Ou debaixo das mesas dos cafés, vi sim uma ou outra pomba, aves citadinas essas, que raras vezes
Vi na aldeia do meu pai a pedinchar um pedaço de pão, na aldeia do meu pai não há pedintes
De nenhum tipo, só portas abertas e a partilha do pouco que se tem, mas Montmartre respira
Ainda, mesmo que o sangue seja vinho daqui ou dali, as casas brilham e no seu tamanho são
Maiores do que o desprezo dos descendentes que herdaram telhas que apodrecem e cedem
Tudo, colapsando todas as noites à lareira, todos os gemidos nos partos em colchões de palha,
Todos os gatos que entravam por buracos pequenos em baixo das portas, como o frio
Entrava nos ossos da gente, Montmartre tem ainda luz, tem olhos, tem gente, gente que
Procura nas ruas a presença de quem já lá não está, mas tens razão, as ruas são tão largas
Num lugar como noutro, apesar da macadamização ser bem recente num lado e estar
Já bem polida noutro, falta gente e uma cidade inteira aos pés para se poder comparar,
Mas mesmo assim, não sei onde me sinto mais em casa, se onde as memórias são minhas,
Se onde as memórias são as que queria que fossem minhas, noutros tempos, as mesmas pedras.

Coimbra

10-02-2014


João Bosco da Silva
Morte De Francesca de Rimini E De Paolo Malatesta

Lanciotto Malatesta depois de vestir a mulher e o irmão, sacode o sangue dos cornos
E mancha levemente as roupas dos dois amantes, que tinham estado a aquecer
Os ânimos com literatura pornográfica, o cabrão, quando viu o irmão a penetrar tão fundo
A sua bela esposa, desembainha a espada, já que o choque lhe encolheu a capacidade de
Desembainhar outra coisa, e portanto a possibilidade de um ménage à trois, ferido no orgulho,
Trespassa os dois que, provavelmente, nem notaram o metal que os espetava, só poderiam
Estar a partilhar um intenso orgasmo simultâneo para não repararem na presença chifruda,
Dizem que da rua, não se ouviram gritos de dor, só gemidos, há ainda quem diga, que
Estavam abraçados a ler, ou que estavam a dar o primeiro beijo, mas só estando numa
Foda desenfreada é que não se nota no brilho de uma espada contra a luz do Sol,
É de mau gosto, comer o que é dos outros e nem partilhar, foi isto que deixou o gajo fodido
E o fez decidir pela espetada, agora o que os poetas disseram sobre, é pura especulação poética.

10-02-2014


Coimbra

João Bosco da Silva