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domingo, 22 de setembro de 2019

Leoa de Madeira

De ti pouco mais tinha sobrado que aquela leoa de madeira
Que comprara em Samburo quando lá estivemos,
Na viagem entre Masai Mara e Nakuro percebi que já pouco te amava,
Tudo está acabado quando o trivial se sobrepõe à ilusão,
Pela leoa queriam a minha caneta, que acabei por dar
A uma menina desconhecida, na apresentação de um dos meus livros,
A noite anterior tinha-a passado com uma professora,
Na sua casa alugada e do que me lembro mais foi de vir-me
No tracejado de luar que as persianas lhe desenhavam nas nádegas,
Tinha uma pata colada, foi se calhar por isso que a trouxe,
Sempre tive um fraco por imperfeições, casos perdidos,
Hoje da leoa só ficou um haiku que escrevi, depois de já não estarmos juntos,
Porque um garoto que nunca conheci a deixou cair
E partiu-se de forma irremediável, assim me disseram,
Não a cheguei a ver cair, contigo foi o mesmo,
Não vi a queda e só ficou um carinho como uma leoa de madeira
Com uma perna quebrada, que também desapareceu,
Às mãos da maldade de um inocente, como o tempo.

Turku

22.09.2019

João Bosco da Silva

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