quarta-feira, 11 de julho de 2018

Ensaio Sobre Vinho Tinto 

“Embora a maior dádiva que um poeta pode oferecer aos homens seja a revelação daquela presença secreta e sagrada, eles não compreenderão tudo o que o poema lhes tenta transmitir.” 

William Carlos Williams 

E agora quê, que o vinho tinto acabou e todos os teus amores 
Te trocaram por um grito seco, que vale tanto quanto todas 
As gotas de esperma que investiste em vazios, 
Todas as promessas com que pagaste ilusões, 
Cada um o potêncial máximo de um absolutamente nada, 
Agora quê, que só, porque os copos vazios, 
Que o Sol se pões ou vai andar a prometê-lo madrugada adentro 
E sempre cumpre uma manhã desesperada de arrependimento, 
E sujo de esquecimento e uma sede poeirenta, 
Agora que só tu e uma mesa vazia, um cigarro que arde no cinzeiro 
Arremedando o que fazes com os segundos, 
Quando não tens a gaita dentro de alguém, 
Sempre esse mesmo apêndice exigente de gente, 
De sonhos perdidos, de isqueiros esquecidos que chamam, 
Agora quê, levantas o cu, pedes mais um copo e adias, 
Adias o óbvio e o inelutável, o vazio que acaba sempre por vencer, 
Espalhas a cinza do cinzeiro como todos os amigos que não 
Voltarão a beber vinho na matança do porco 
pelos quais ainda choras em sonhos, 
Pelas conquistas francesas, pelas suas viúvas portuguesas 
Em aldeias esquecidas, todos, todas, acendes mais um cigarro, 
Tentas mais um poema, porque ainda estás vivo, se calhar. 

09.07.2018 

Turku 

João Bosco da Silva 

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