sábado, 16 de setembro de 2017



Poema a Han-Shan



”Apanho fetos para ocupar os anos que me restam”

E mais de um milénio depois o mundo que deixou

Lá em baixo, longe da Montanha Fria, lê os seus poemas,

E por momentos suspende-se o ruído que nos consome,

E sente-se dentro o vento que anima os juncos,

Como um salto de verso, a humidade da erva,

Novamente nas costas inocentes sobre o mundo.



17.09.2017



Turku



João Bosco da Silva

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Haikus

Não quer viver
em versos -
comigo agora.

Pequeno Sol
que acende
a alma do poeta.

Pequeno Sol
que ilumina
os abismos do poeta.

Qualquer estrela
te inveja
pequeno Sol andarilho.

Arrancava as raízes
por mais uma
ancoragem no teu sorriso.

Verão frio –
mel quente
escorre dos lábios.

Céu azul em Agosto,
respira-se claro –
Portugal?

Nem sempre
há fumo
no horizonte.

Uma árvore
num descampado –
a solidão sobrevive.

Esta pequena
pena perdida –
onde o pássaro?

O que os olhos vêem –
tudo o que
não será.

Agarra o que te move
enquanto o mundo
chega ao fim.

Não cresças demasiado
antes
da tempestade.

Raízes sem espaço –
queda anunciada
na próxima tempestade.

Acabou por cair
o pinheiro
do cimo da fraga.

Aquele pinheiro
em cima da fraga
acabou por cair.

Sabes-me
ao Sol de Agosto
no restolho.

Mastigar um figo
como o que restou
da infância.

Castelos de areia,
raízes em fragas –
tudo seca.

Ondas e gente –
só o mar
permanece.

Não rima
nem nada –
é a vida.

Apodrece na areia
a alga –
qualquer distância consome.

Não escolhas nada –
deixa a chuva
cair.

Chegam ao paraíso
notícias tristes
da casa de Inverno.

Um rochedo
coberto de nevoeiro
no peito.

Peões de pedras
e paus –
injectam medo encomendado.

Levar a infância
seca
ao rio do Verão.

Onde se deixou
o Sol
que a pele queimou?

Fim de verão –
o rio que passa
permanece.

Cantam os grilos
longe dos filmes
japoneses.

À beira do rio
as flores
dizem adeus.

Secaram as amoras
ao Sol –
os amores e as andorinhas.

Anoitece –
na pele quente
o Sol ainda.

Manhã fresca
de Junho –
papel de banda-desenhada.

Debaixo da figueira
os figos apodrecem –
o Verão passa.

Caule ao vento –
o movimento
a verdade.

Tudo nos sobrevive
até uma pequena
lima de madeira.

Como segundos que passam
as moscas
no fim do Verão.

À sombra da mimosa
a mula
espera o Outono.

Debaixo da oliveira
eu
e uma sombra.

Toca o sino –
levanto-me
da fraga quente.

Amarelecem as agulhas
do pinheiro –
cai a pele.

O pinheiro da infância
resistiu ao incêndio –
escrevo com carvão.


Torre de Dona Chama – Peniche – Berlengas – Cidões, Agosto de 2017

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Canícula E Gato

Enquanto a canícula incendeia os sonhos de quem tenta a sorte numa sesta,
Ouço os ecos de deuses mortais na companhia de um jovem gato
Que parece gostar desinteressadamente da minha companhia,
Apesar do meu corpo quente e cheio de arestas, parece que conhecendo,
Ignora todos os infernos, de olhos fechados, enfrentando cada segundo
Como uma eternidade, visitam-me derrotas como uma cólica renal
E sinto a náusea das que me esperam, que tenha mãos suficientes
Para conseguir perder tudo com a graça do sono do gato, que no fim
Tenha a sorte de ecoar numa banheira, depois da minha voz muda se apagar com os olhos.

Torre de Dona Chama

23.08.2017


João Bosco da Silva
Escrevo-te Da Ilha

Escrevo-te da ilha, cansado de tanto ódio de mão cheia de terra nos olhos,
Escrevo-te do isolamento inseguro, sobre este nevoeiro que se adensa
À volta do coração, queria falar-te dos voos das aves, do rebentamento do azul
Nas rochas dos sonhos, do ar leve e luminoso, mas não consigo, não enquanto
Nos passeios da minha cidade do norte, da minha casa, seca o sangue inocente,
Mais uma vez por uma sem razão, por mais um passo em direção à distância
Entre nós, escrevo-te da ilha com uma ilusão segura e de perto os corvos
Abordam-me com uma fome que me afasta as gaivotas, minha casa alugada vazia,
Meu coração, fechado naquela caixa onde guardo os livros mais raros,
É uma rocha que aos poucos se torna areia, dispersa num mar de distância.

Baleal (Peniche)

19/08/2017


João Bosco da Silva

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Morpheus Antes Do Café

Num café arrancado dum filme de David Lynch para uma vila do interior
Numa noite cinzenta do Sul, onde tu entras e logo sei que eu todo dentro,
Tu como uma estranha baunilha perversa me arrancaste a tábua antes
De suster a respiração para o mergulho, o teu amigo barman, sorrisos de lado,
Como posso ser um estranho no meu próprio sonho, como não conheço
Todas estas personagens com que o meu subconsciente me coloniza o sonho,
Nós na casa-de-banho, pintada toda de preto, como outra que conheci
Antes das paredes cobertas de hieróglifos florescentes, eu fascinado
Pela tua divina inocência animal, tão angelical como a descida do favorito,
Então neva em Agosto, mas logo o Sol torna a certeza de um sonho meio
Trapalhão e estavas no fim do degelo, numa igreja trazida de pixels
Ou de uma Boston que nunca visitei, o olhar da tua mãe como o sorriso
Do teu amigo, o teu cabelo como uma cortina ao te dares conta da minha presença,
Encolhi, os mesmos dezasseis anos, afinal tu de ninguém, eu apenas
Mais uma aposta com o teu amigo de café, o seu cabelo o meu cabelo
Oleoso dos dezasseis anos, nunca mais uma resposta tua e eu com uma fome
Que antes não conhecia, antes de me entrares pupilas adentro, antes de te entrar
Até ao equilíbrio térmico de dois corpos de ninguém, por tão pouco,
Só pelo prazer de ver alguém engolir sapos com o coração,
Então o café de David Lynch vencido por um tasco da terra, onde no bolso
A incerteza de pedir em liberdade e uma garrafa que se leva aos lábios
Para te esquecer ainda antes de ter acordado, quando o meu copo
No balcão, ao teu lado, onde me ignoravas com tanta força que parecias gritar.

Turku

03.08.2017


João Bosco da Silva

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Andorinhas e Detergente no Hipocampo

Onde será que se atrasaram as andorinhas, em que verões se terão apaixonado
Apressadamente, antes que as primeiras tempestades de setembro lhes
Desfaça o eterno amor de barro nos beirais esquecidos dos dias de vento,
Para que chegam agora, já lentas, trazendo as catástrofes humanamente naturais
Vindas dos excessos de história e outras saturações civilizacionais,
Para onde espantam os tímidos bebedores de sangue que mal vibram
No ar que o Sol já menos lento, se apressa em cobrir de prata fria e sono,
Que segredos gritam, trazidos de verões que ainda vão a meio, vidas que findam,
Há dez anos que ficaste num verão que só a música na sombra de um dia quente
Me traz, porque alguém tinha esfregado o passeio em frente e abri a janela para que a vida
Me entrasse finalmente dentro, lavada, o sol brilha só quando se tem luz dentro,
A primavera chega e parte sem uma andorinha, a vida encerra-se desvivida,
Só porque se acreditou que a vida um livro de vários volumes, outro filme,
Noutro filme, os anos nunca se atrasam e há um Inverno que não acabará.

Turku

João Bosco da Silva


27.07.2017

segunda-feira, 24 de julho de 2017

A Chester Bennington

No ar de Agosto havia aquela cheiro familiar à anormalidade dos incêndios,
Fazia parte do verão como os escorpiões na escadas, a música ruim nas ruas,
Que se entranhava na alma esponjosa mais facilmente que poemas imortais,
Havia a interior promessa de beijos roubados e o cheiro a perfume na palidez
Do sotaque francês, havia a longa caminhada seguida por incenso
Empunhando uma cruz metálica mais pesada do que os pecados cometidos
Entre as cuecas e a vontade das garotas que iam dormir lá em casa em noites de luar,
Havia todo o tempo do mundo, para tudo, as mãos ainda com espaço suficiente
Para agarrar quase o mundo todo e o coração cheio das certezas que nos ensinaram,
No entanto, deixou-se cair a cruz, os lábios que se humedeciam na língua
Não aqueles que a fome pedia, as certezas trocaram-se pela verdade do vazio,
O mundo tornou-se num castelo de cartas num vendaval, procuraram-se
As perdições alheias em páginas que dificilmente se encontravam em terra de brutos,
No espelho tomou forma uma presença que sendo tudo, não era nada,
A morte derrubou as torres do grande império e os reis começaram a injectar medo
Nos peões do tabuleiro, surgiu o poema, o vestido, o muro de pedra, caíram amizades,
Cresceram as dioptrias, os dióspiros ainda longe de maduros, tudo se tentou
Nas noites de insónia, sem mover um músculo, enquanto os grilos na rua
Semeavam o gosto futuro por filmes a preto e branco japoneses,
Nisto uma presença gritante, sempre, naquele quarto escuro e fresco,
Enquanto um mundo ardia e outro se desmoronava, alguém gritava o que as noites
Cobriam de escuridão, alguém que afogando-se em si mesmo, era uma mão,
Alguém que acabou por deixar de tentar acabar o castelo de cartas num vendaval
E se pendurou, alma e tudo, levando com ele uma parte de todos os desconhecidos que tocou.

24.07.2017

Turku


João Bosco da Silva

domingo, 23 de julho de 2017

Sala De Espera

Quando é que os dias se tornaram numa sala de espera bafienta, escura,
Com mobília dos anos 70, onde zumbe já faminto o caruncho dos ossos,
Esperando que a porta se lhes abra e seja chamado o nome
À consulta kármica, para se receber um frasquinho com meia dúzia de dias felizes,
Depois deste volte cá e espere, a porta da rua está sempre aberta,
E lá fora ninguém, nada, a saída definitiva para um dia infinito e vazio,
Quando é que todas as revistas se tornaram sobre vidas desinteressantes,
Como espelhos ou então exemplos de todos os fracassos que se acumularam
Em nome de te tornares no que hoje és, algo afundado num sofá
Com as mãos sobre os joelhos, procurando encontrar em que linha te despistaste,
Como quem perdido num dia de chuva, procura encontrar o caminho
De volta, com um mapa ao contrário de uma outra cidade,
Quando é que surgiu esta vontade de saltar por cima de bocados enormes de vida,
Estações inteiras, companhias decentes, a fruta quase toda para o lixo
Na esperança de uma gota destilada de um Sol que se sinta tocar
Algo que enterramos há muito, bem fundo, só porque não se sabia, como nada se sabe
E por cima de toda a ignorância, erguemos este castelo de certezas e esperamos.

23-07-2017

Turku


João Bosco da Silva

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Primavera Paris Verão

Primavera

Muito tarda
o canto do cuco
em chegar ao norte.

A gengiva sangra
o sangue cospe-se
o dente fica.

É disto que te
estava a falar –
então acordo.

Não há adubo
que salve
a planta que secou.

Uma motosserra vizinha
e o meu pai
mais perto.

Seu mundo verde
e o meu
de distância.

A noite apaga-nos
os sorrisos –
que luz nos resta?

Não sorrias como se a noite
não te espere
no fim do dia.

Precisamos uma loucura
que nos salve
desta vida.

Eles regressam
a casa –
faço disto o meu mundo.

Só há verdadeira
paz
no cansaço.

São o lugar comum
que nos resta –
os sonhos.

Paris

A vinha de Montmartre
e um copo de vinho
ao Sol.

O verde antes
do palácio
satura os sentidos.

Salta a rolha
da garrafa de champanhe –
cabeça real no cesto.

Tosse o verde
cansado
de tanta pressa.

Verão

Tão pouco reino
para tanta
rainha e princesa.

Nas asas de uma borboleta
apenas pó
colorido.

Afogado em verde
o cavalo
não liga à solidão.

Verão no calendário –
pingos na lata
do coração.

Uma interrupção
consciente
na eternidade.

Chove nos paralelos
quentes –
gasta-se a vida.

Tanta água
nos passou
nas mãos vazias.

Vão e vêm
as ondas
do mesmo sangue.

Fecham-se portas –
novas flores
nascerão.

Na areia a pegada
apaga-se –
quem me recorda?

O Inverno
tão certo
como o esquecimento.

A felicidade –
isto com uma erva
na boca.

Riscar areia
com um pau seco –
poesia.

Turku-Paris-Helsínquia-Savonlinna

Maio – Julho 2017


João Bosco da Silva