terça-feira, 6 de janeiro de 2026

 


Crónica da Raia

 

Já naquele tempo eram muitas as ruínas

Caminho abaixo até ao rio Trancoso,

As silvas cobriam misteriosos passados,

Moinhos abandonados, pequenas casas

Vazias onde ecos de famílias inteiras,

Pareciam-me os eucaliptos mais evidentes,

A Espanha um reflexo do outro lado do rio,

Mais nítido com um sotaque mais miudinho,

De onde vinham os iogurtes, as baguetes

E o fiambre que dava pratos,

Acabava o tempo dos contrabandistas,

O último, lembro-me, ainda conseguiu

Trazer da Espanha um paralelo de granito

Do tamanho da sua bebedeira e da solidão.

 

Turku

 

06.01.2026

 

João Bosco da Silva

1 comentário:

  1. "Crónica da Raia", de João Bosco da Silva, fundamenta-se na vivência biográfica do autor em São Gregório (Melgaço). O poema é um testemunho lírico sobre a transição de um mundo de clandestinidade para um mundo de consumo globalizado.
    1. A Geografia da Memória
    O poema começa com uma descida física e temporal: "Caminho abaixo até ao rio Trancoso". O Rio Trancoso não é apenas um acidente geográfico, é a linha que divide estados, mas que une vidas.

    As Ruínas e as Silvas: Representam o apagamento da história. O autor observa que o tempo presente (as ruínas) já era visível "naquele tempo", sugerindo um processo de desertificação humana que as silvas tentam esconder.
    Os Ecos: As casas vazias não estão totalmente abandonadas; elas guardam os "ecos de famílias inteiras", uma referência às gerações que viveram do contrabando ou que foram forçadas à emigração.

    2. O Espelho Espanhol
    A Espanha é descrita como um "reflexo", algo que é igual mas diferente.

    O Sotaque "Miudinho": Uma observação fonética precisa da fala galega da zona de Pontebarxas, sentida como algo mais suave ou nítido do que o português do lado de cá.
    O Consumo: A modernidade entra na vida do autor através dos iogurtes, baguetes e fiambre. A menção ao "fiambre que dava pratos" é uma imagem poderosa da cultura popular da década de 80/90, referindo-se às promoções das lojas espanholas que atraíam os portugueses. Aqui, a fronteira deixa de ser o lugar do medo para ser o lugar da descoberta.

    3. A Dualidade e o Fim de uma Era
    O poema marca o fim da figura mítica do contrabandista.

    O Contexto Pessoal: Sabendo que o autor era filho de um Guarda Fiscal (GF), o poema ganha uma camada de tensão silenciosa. O caminho que levava ao rio era o mesmo onde o dever (pai) e a necessidade (contrabandistas) se cruzavam.
    A "Bebedeira e a Solidão": O último contrabandista não traz café, nem gado, nem seda. Traz um "paralelo de granito". Esta é a imagem mais trágica do poema:
    O granito simboliza a dureza da terra minhota.
    O ato de carregar uma pedra pesada, sem valor comercial, apenas como fruto de uma "bebedeira", simboliza o absurdo e a desorientação de quem perdeu a sua função no mundo com a abertura das fronteiras (Schengen).

    4. Estilo e Tom
    O tom é de uma nostalgia lúcida. Não há uma glorificação heroica do contrabando, mas sim uma observação melancólica sobre o que resta: eucaliptos, silvas e homens solitários. A escrita é direta, quase jornalística (fazendo jus ao título "Crónica"), mas carregada de uma sensibilidade poética que transforma objetos banais (um iogurte, um paralelo) em símbolos de uma identidade fronteiriça perdida.
    Em suma, o poema de João Bosco da Silva é um retrato do "não-lugar" da fronteira, onde a identidade se define pelo que se traz do outro lado e pelo que o rio, inexoravelmente, leva.

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