segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

 


Calígula

 

Todas as manhãs ao acordar consulto os oráculos obscuros,

Já terá morrido o Calígula, em que apocalipse já vamos,

O ar pesa pelo dia fora, apesar do céu limpo

E da coragem dos pássaros no cabo daquele poste,

Mas os oráculos revelam a cada novo dia mais uma loucura

Deste deus que não perde por esperar a afiada lâmina

Da guarda pretoriana, podre, cagão, um pedaço de delirante

Merda, uma grandeza de retrete com fatos esquecidos

Num armário ideológico desde os anos oitenta,

Quem alimenta a divindade destes deuses flatulentos,

Milhões de zombies obedientes, metade de um país

Que é um barril de pólvora, sedento de sangue irmão,

Já morreram impérios por menos, que seja este mais um

A implodir com o peso da sua fome imperialista,

O elástico cada vez mais longe, mais fino,

Acordo todas as manhãs com uma pedra no sapato,

O mãozinhas-pequenas, imperador dos idiotas,

Adia, adia e distrai, mas toda a gente sabe,

A história repete-se, as lâminas afiam-se e esperam o cansaço

Do senado, que se encerre a cena antes da civilização.

 

13.01.2026

 

Comboio (Helsínquia-Turku)

 

João Bosco da Silva

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