quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Lua e Morcego

 

Quando aponto para a Lua e te digo,

Olha que grande, tu logo,

Na tua língua, morcego, morcego grande,

Não dizes Lua, nem Kuu,

Mas morcego,

Sei que nunca viste um morcego,

Além de uma ilustração infantil,

Não como os que capturávamos

Na igreja e eventualmente

Morriam quando os soltávamos em casa,

Sem espaço para se orientarem,

Escavávamos depois em fragas de granito

Pequenas covas, como túmulos neolíticos

Ou medievais, onde cabiam

Uma pequena caixa de fósforos

E dentro o delicado corpo do morcego,

Aos teus olhos a Lua também cabe

Numa caixa de fósforos e estás tão certa,

Porque é que a Lua é Lua e não morcego

Ou outra palavra qualquer,

As palavras têm ainda para ti

O peso e a agilidade das asas de um morcego.

 

03.02.2026

 

Comboio (Helsínquia-Turku)

 

João Bosco da Silva