sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

 

Contar Carneirinhos

 

Às vezes, quando a noite tem o peso do mundo

E cansaço encosta a insónia ao futon,

Prometendo-lhe medos maiores, revoltas silenciosas,

A caixa de pandora fechada ao lado, insuportável,

Não conto carneirinhos, tento lembra-me,

Um por um, não dos nomes, mas dos corpos

Onde me deixei ser todo eu, vertendo futuros,

Promessas obvias na derrota, até que me perco,

Ou na areia daquela praia à noite em Tenerife,

Nos lençóis duvidosos naquele barco desde Estocolmo,

Na casa de banho dum bar, doutro bar,

Até que as contas espalhadas pelo chão,

O colar apertado enfim quebrado,

E o corpo só, finalmente, se deixa diluir quente,

Em lençóis de mercúrio, Caronte ou Morfeu,

Um barco sobre um banco de areia movediça.

 

30.01.2026

 

Turku

 

João Bosco da Silva

 

 

 


No Comboio com Shiki

 

Tenho separado bivalves como quem procura

Um fôlego que não chega,

As pestanas fecham-se no arrependimento,

As manhãs são secas e duras,

O chão a verdade mais doce dos limites

A que os pés chegaram,

O mais difícil em envelhecer é assumir,

O pior de envelhecer é deixar-se ser,

Mas nada deixa cair o que os anos

Deixaram agarrado aos dedos

Que enrugam noites fora,

Dentro e fora de humidades alheias,

A juventude dá-se com a facilidade da fome,

Hoje sou só eu, sentado e longínquo,

Uma memória em forma de promessa

Que ficou por cumprir,

Acaba tudo em mais do mesmo,

Uma borboleta, mais uma,

Contra um vendaval de esquecimento.

 

Comboio (Turku-Helsínquia)

 

13.01.2026

 

João Bosco da Silva