No Comboio com Shiki
Tenho separado bivalves como quem procura
Um fôlego que não chega,
As pestanas fecham-se no arrependimento,
As manhãs são secas e duras,
O chão a verdade mais doce dos limites
A que os pés chegaram,
O mais difícil em envelhecer é assumir,
O pior de envelhecer é deixar-se ser,
Mas nada deixa cair o que os anos
Deixaram agarrado aos dedos
Que enrugam noites fora,
Dentro e fora de humidades alheias,
A juventude dá-se com a facilidade da fome,
Hoje sou só eu, sentado e longínquo,
Uma memória em forma de promessa
Que ficou por cumprir,
Acaba tudo em mais do mesmo,
Uma borboleta, mais uma,
Contra um vendaval de esquecimento.
Comboio (Turku-Helsínquia)
13.01.2026
João Bosco da Silva

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