sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

 


No Comboio com Shiki

 

Tenho separado bivalves como quem procura

Um fôlego que não chega,

As pestanas fecham-se no arrependimento,

As manhãs são secas e duras,

O chão a verdade mais doce dos limites

A que os pés chegaram,

O mais difícil em envelhecer é assumir,

O pior de envelhecer é deixar-se ser,

Mas nada deixa cair o que os anos

Deixaram agarrado aos dedos

Que enrugam noites fora,

Dentro e fora de humidades alheias,

A juventude dá-se com a facilidade da fome,

Hoje sou só eu, sentado e longínquo,

Uma memória em forma de promessa

Que ficou por cumprir,

Acaba tudo em mais do mesmo,

Uma borboleta, mais uma,

Contra um vendaval de esquecimento.

 

Comboio (Turku-Helsínquia)

 

13.01.2026

 

João Bosco da Silva

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