domingo, 14 de dezembro de 2014

Férias De Natal Revisitadas

À espera estava a geada nas couves e nos ramos descarnados do marmeleiro,
O cão escondido do nevoeiro dentro de um bidão, hoje o bidão vazio,
Sem companhia no dia da festa à hora dos foguetes da tarde,
À espera a lareira, com a dança hipnótica das chamas, na sala
A um canto o chão coberto de musgo e palha e figuras de barro
Pintadas à pressa com o rigor devoto a um deus dependente do tempo,
Ao lado os embrulhos do costume, cada vez mais transparentes,
No quarto transferia-se a roupa do saco para o guarda-fatos,
Agora, abre-se a mala, tiram-se os livros para acompanhar
A lareira e deixa-se aberta, chegar começou a confundir-se com partir,
Agora nem se chega a tempo de ouvir a música, soldada
Algures numa fábrica escura da China, das luzinhas de Natal,
Que se guardavam sempre para o próximo e nunca aguentavam
A sua inutilidade no resto do ano, à espera estavam os serões
De roupão, os dias inteiros de pijama, o leite com chocolate
Quando se toleravam infantilidades mamíferas, à espera
Estava o ainda ter o futuro pela frente, o ainda não é para já,
Ainda se acreditava no nunca mais e no potencial de uma caixa vazia,
Escreviam-se poemas iluminados pelo crepúsculo incendiado
Na mesa da cozinha em folhas A4 roubadas da velha impressora,
Antes da mãe fazer o jantar e ainda havia aquela sensação
De ser algo especial, aquilo, aquela folha que era nada
Tornada poema, aquela emoção que era muda, um grito,
O cheiro das rabanadas salpicadas com canela e Enya do rádio
Que foi a prenda da irmã uns natais atrás, os caixotes do lixo
Temendo a avalanche que lhes cairá no dia de Natal,
O avô que não se julgava ser o último e afinal, os lábios roxos
Do vinho nunca mais se mostrarão contentes por estarmos
Todos juntos, nunca mais estaremos todos juntos, tudo se rasga
Como um embrulho, para se revelar o amanhã, e a surpresa
Perde-se para sempre e é impossível voltar a embrulhar o amanhã
E torná-lo no lugar onde tudo é possível, o gato deixa de estar vivo e morto,
E se está morto nunca poderá estar vivo, nunca mais, na vida ao menos
Sempre se têm duas hipóteses, mesmo que não hajam certezas,
Antes de se entrar, a lareira estará sempre acesa, o gato estará a fazer de cão,
E o jantar não tardará, por isso tenho que acabar esta geada nas couves
E nos ramos do marmeleiro, lá longe, onde me mora o Natal.

14.12.2014

Turku

João Bosco da Silva