sexta-feira, 22 de maio de 2015

Ensaio Sobre O Ridículo De Durar

Que vais fazer agora que todas dormem nos braços de alguém com alguém novo nos braços,
Se és do tamanho de tudo o que perdeste, és enorme, agora numa mão, seguras apenas
O esquecimento, na outra tudo o que poderias ter conquistado, rei do agora e já,
De ti mesmo, só, cansado, cheio do vazio dos outros, lutando contra as memórias que se vão,
Incapaz de impedir o amarelecimento dos dentes e o empalidecer do cabelo, aprisionado
Entre folhas de papel e tinta preta o pouco que te ficou de quem fez de ti quem és e mais
Do que isso, o que és, agora aperta com força o esquecimento antes que arrefeça, o vazio,
Pode ser que consigas sangrar na lembrança de alguém, pode ser que ressuscites nos sonhos
De alguém, ou à beira do rio num dia de aniversário, ou num grão de areia num lábio irritado,
Ou numa almofada numa manhã de Natal quente, quanto muito no sabor de uma tosta-mista
Com os vidros do carro embaciados, que vais fazer agora que todos os sonhos cresceram
E se tornaram ou ridículos ou impossíveis, agora que engoles o esquecimento e naufragas.

Turku
20.05.2015

João Bosco da Silva