terça-feira, 14 de julho de 2015

Limpar As Unhas Recém Cortadas

Enquanto limpo as unhas recém cortadas encontro o sangue seco dos dias que se me
Tornaram alheios, vejo quem beba o mijo julgando que ouro nos olhos, nádegas
Beijadas à procura do favor de um cu demasiado umbigo, tenho gente nas unhas,
Não há sabão que cure tanto génio, não há espaço suficiente para os sonhos,
Já pouco cabe na possibilidade, dá-se um pouco de ar aos pulmões por caridade,
O resto é olhar fotografias com outra cor e o mesmo olhar, mas com vida,
O que resta é o que certas músicas enterradas despertam na língua e nos cílios
Que nos envergonham as narinas, dizem que o nariz e as orelhas não param de crescer,
Digo que é o que nos afasta de nós mesmos, como a mandíbula alargando o ângulo,
As manhãs frias no recreio ao sol, um ângulo quase impossível, o beijo atrás do carro
Do padeiro, um ângulo impossível, a felicidade, impossível, de vez em quando,
Lá se encontra um sorriso limpo de cores quando se limpa uma unha suja de terra,
Mas os dias são o pó que nos torna a carne bíblica, somos a desilusão dos deuses
Que inventamos, demasiado fracos, demasiado pobres, demasiado mortais,
Com a vontade para o futuro roído pela fome que nos é sempre presente,
Enquanto limpo as unhas, olho-me ao espelho, vejo-nos, cansados, batidos por tudo,
Por todos, todos tão bons e premiados, com amigos de mãos cheias e olhos
Bem abertos, quanto existimos, quanto somos, sangue seco nas unhas desiludidas
E cortadas à noite na esperança de uns espigões que façam sangrar um pouco
O tédio dos dias limpos, das palavras demasiadas, desenterrando o cadáver
Da inocência aos bocados, apodrecido como as línguas que me passaram nos tomates
Um dia, o sangue seco das unhas, vai-se pelo ralo abaixo, de nós pouco fica.

14.04.2015

Turku


João Bosco da Silva