terça-feira, 13 de outubro de 2015

Nojo E Vergonha Na Primeira Classe

Uma vez na primeira classe, saímos mais cedo, já a aldeia estava toda acordada,
O nevoeiro tinha levantado, aquilo parecia-me um crime, pela rua, aquelas horas,
Eu e o Zé Pequeno, perto da mercearia onde a mãe uma vez comprou cereais
Muito bons mas caros, de chocolate, com um urso na caixa, uma rapariga grande
De uns doze já, ou quinze, mais do dobro da nossa idade de certeza, chamou o Zé,
Tinha um bolo na mão, cravou-lhe uma dentada e deu ao Zé o resto, ele aceitou
Todo contente e ofereceu-me, eu recusei repugnado e ele atacou o bolo,
Provavelmente a primeira coisa que comia em todo o dia, senti vergonha por ele,
Nojo do bolo e ódio pela rapariga, aquilo pareceu-me uma afronta, aquela dentada
Antes da esmola, como cuspir na comida antes de a dar a quem tem fome,
Como afastar as nádegas de uma pobre para pagar a ilusão do favor que se lhe fez,
Como dar um tiro num cão vadio, porque coitadinho, não tem quem tome conta dele,
Só mais tarde perdi nojo ao que as raparigas grandes tocavam com a boca e davam como esmola.

13.10.2015

Turku


João Bosco da Silva

poema pela voz de Marlene Babo