terça-feira, 27 de outubro de 2015

o pintor 

ele veio até ao alpendre 
com um tipo anormal sorridente 
e lá ficaram 
bêbados de vinho. 
o pintor tinha algo embrulhado no seu casaco, 
então tirou o casaco –  
era um capacete de polícia 
completo com distintivo. 
“dá-me 20 dólares por isto,” diz ele. 
“desaparece, meu,” disse eu, “para que quero eu um 
capacete de polícia?” 
“dez dólares,” disse ele. 
“mataste-o?” 
“5 dólares . . .” 
“que fizeste àqueles 6 mil que ganhaste 
na tua exposição o mês passado?” 
bebi-os. tudo no mesmo bar.” 
“e eu nunca bebo uma cerveja,” disse eu. 
“2 dólares . . .” 
“mataste-o?” 
“encurralámo-lo, socámo-lo um pouco . . .” 
“isso é treta. não quero o capacete.” 
“faltam-nos 18 centavos para a garrafa, meu . . .” 

dei ao pintor 35 centavos 
mantendo a corrente na porta, entregando-lhos 
com os dedos. ele vivia com a mãe, 
batia regularmente na namorada 
e na verdade não pintava assim tão 
bem. mas suponho que muitos dos personagens obnóxios 
trabalham o seu caminho até à 
imortalidade. 

eu próprio estou a trabalhar nisso. 

Charles Bukowski, in Mockingbird Wish Me Luck (Blacksparrowpress, 1972)

Tradução: João Bosco da Silva