terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Burros E Caretos

Venus In Furs


Lágrimas de todas as cores, congeladas na geada dos montes infinitos
Das noites celtas esquecidas pelas correntes da inquisição,
Tão longe que não valia a pena por meia dúzia de cabras e uns burros,
Severin, de joelhos a tentar reanimar o burro, com a vara a gotejar
O suor transfigurado do esforço distante, ainda longe tudo,
Hoje, depois de cartas enviadas por reis, entretanto esquecidos também
Entre ditaduras dissimuladas e outras camufladas de rosa e laranja,
O canhoto arde, as cabras berram, os burros levantam blocos de gelo
E garrafões de vinho, eu ajudo, extasiado por uma escuridão capaz
De tanta cor, cheira a burro, a cavalo, a cabedal das correias transpiradas
Contra o frio da madrugada, a fumo e café regado com aguardente,
Severin, severin, espera por mim na manifestação do meu cansaço,
À espera do meu sono eterno, cheio de sonhos desencantados,
Até amanhecer com o suspirar das últimas brasas, o resto foram anos
Perdidos, uma sala de espera enorme e demorada, conheces o desejo
Dos mortos, a vontade dos perdidos, as chamas crepitam seus sonhos,
Aqueles que me acordas com as gotas de lágrimas de arco-íris,
Enquanto os burros mordem as correias de cabedal, urram contra a geada,
Urro contra o esquecimento, contra todas as estrelas que nos arremedam,
Cheias de quase eternidades comparando com o nosso sopro breve,
E o coração morre mais um ano, as cinzas agarram-se como água
Numa sede de fome, numa madrugada que nasce num mundo perdido,
Como antes, como sempre, até ser o último, o último brilho da brasa que se apaga.

09.12.2015

Turku


João Bosco da Silva
Postal De Natal Para Poeta

para a Tatiana,

Podia falar-te do meu Natal, daquela semana nas geadas trasmontanas
Entre madrugadas de neblina e acordares tardios, almoços esforçados,
Tardes nas tascas até ao jantar e o regresso paralelos acima até
À hora dos paralelos serem um fruto difícil de espremer, contudo
Para os lados da igreja tudo se destila, gota a gota, em verso,
Sinto as hóstias roubadas à consagração e as manhãs contrariadas
No pré-ateísmo acólito, podia falar-te do moleskine à lareira
E das páginas onde o regresso impossível, onde as figueiras sem folhas
E o verão no mesmo baú fechado do regresso, na companhia do
Papel de embrulho das prendas que também acabam com a mesma sorte
E valem pela espera, valiam, agora não se espera nada, não se precisa de nada,
Ou o que se precisa, também no baú fechado e impossível a ser pó,
Ou esquecimento, chamem-lhe o que quiserem, haverão amigos
E fogueiras, nada será ressuscitado, mas haverá purificação no excesso,
Haverá vinho e bagaço e a partilha de sonhos perdidos como a troca
De cromos para as cadernetas que nunca se completaram,
O dinheiro não dava para as sandes na cantina na escola,
A banda-desenhada semanal e a saqueta de cromos da bonecada da moda,
E nunca se viveu tão bem, como quando parece que se acabou de viver
De verdade, podia-te falar dos poemas derrotados pelo caruncho, fechados
Nas gavetas ou em disquetes desmagnetizadas pelo progresso,
Dos desenhos que se deixaram na praia da poesia, e a mão tão melhor
Para o resto, até dos cães mortos que se deitavam a um canto da lareira,
Dos gatos que agora apenas um escanzelado que eu odeio por ser
Demasiado parecido comigo em tudo e nem é meu, podia falar-te,
Contudo é melhor esperar, não fica bem falar do futuro como se fosse já passado,
Mas com o tempo, os dedos pousam e o futuro escreve-se como esperado.

08.12.2015

Turku


João Bosco da Silva