quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Sacudindo A Gaita

“parecendo que não uma pitada de mau gosto melhora a qualidade de vida”

António Lobo Antunes

Entre ortodoxas, católicas, luteranas e muçulmanas nunca tive uma budista
E só passei ao lado de um casamento xintoísta, à parte disso, a caminho da serra,
Encontrei-me muitas vezes com três curvas seguidas, entre vacas a pastar,
Poços no auge da primavera e cerejeiras em flor, Caeiro queria ser japonês,
Mas só Bashô consegue ver com clareza absoluta, uma gota de água
Nunca poderá ser uma gota de ouro e por isso nunca terá menos valor,
Pára-se o carro ao lado de uma casa de guarda-florestal para um broche rápido
E logo desce de uma fraga o Gary Snyder com a sua barba branca
Até se apagar numa passagem de papel-higiénico num roçar de Bukowski
À espera de um quarto alugado no sofá de uma torre que partilha o horizonte
Com o castelo, alguém eleva uma revista mas não tem cona, por isso ninguém dá
Um caralho pelo gesto, no ar longe da condensação dos suspiros em pé de Hemingway
E a sua neve de papel caindo ao lado das pernas das amantes e do horror da mulheres,
As garrafas acabam sempre tão vazias quanto o espaço entre cada golo,
Queria dizer página, queria dizer mulher, queira dizer cona, queria dizer
Vazio, tão vazio, somos, tão vazios nos queremos, podendo ter a felicidade
Num aperto de mão que não quer largar, mas largamos tudo, todas,
E as rãs um sonho acidentado à beira de um poço em verões que mal se lembram,
O que nos terá feito tão velhos antes da careca de ping-pong do Miller,
O que nos terá feito tão cansados e salpicados pela tela toda do Pollock,
Será o medo de um extraterrestre humano, metade nós, ao lado da juventude,
Quando a juventude já longe dos primeiros pêlos de barba brancos,
Quando começamos a cair, se chegamos aos vinte já em queda livre,
Ainda estará livre a namorada Turca, já estará no museu a ortodoxa,
As luteranas ainda chupam gaitas indefesas nas festas das empresas,
As católicas continuam a engolir hóstias e gaitas no cu, que não é pecado,
O Álvaro de Campos deve estar enterrado nos Estados Unidos
Num monte verde, com uma engrenagem desenhada no granito,
Onde se lê, não dei por ela, mas foi minha, a viagem que já esqueci.

01.12.2016

Turku

João Bosco da Silva