quinta-feira, 1 de junho de 2017

Um Poema

Não tenta guardar qualquer momento, o poema, é como um olhar no espelho,
Cada verso é escrito com a areia que os dedos deixaram escapar,
Um poema bom é uma derrota bem conseguida, uma borboleta espetada num alfinete,
Nunca se captará o voo do tempo, só na ponta dos dedos se sente o que agora
Duro, para baixo, para baixo a tomar forma de uns seios, a passagem nuns lábios
Que nem os olhos um sorriso uma vez mais, é tão inútil, ressuscitar o que os mortos
Nos deixaram entre um esquecimento e outro e com isto acendem-se madrugadas,
Sacodem-se garrafas vazias numa vida que se extingue e só se dá pela ausência,
Os olhos deixam de ver quem nos aquece, procuram na distância míope
A ilusão que possa salvar a condenação certa, o poema mal toca na perdição,
Mal se acende e é todo falhas nos olhos dos especialistas de relâmpagos,
Demasiado barulho esta humidade reprimida e a terra continua a cobrir
Os olhos que nos mereciam, sempre os que se fecham a certeza de serem merecedores,
Um poema que tenha a pretensão de salvar o mundo é um poema inócuo,
Só aquele que cospe nos olhos da cegueira e mostra a luz demolidora do tempo
Justifica o mau uso da ponta dos dedos, o cansaço dos olhos na luz fraca,
A má-língua sem se importar com as más-línguas dos deuses que engordam ossos para a morte.

Turku

02-06-2017


João Bosco da Silva
Um Tropeço Nas Noites Frias

Não se regressará nunca àquelas três horas entre o salto e o medo,
Entre nós um aeroporto e tantas ilusões, lembras-te do gosto do tabaco naquela noite,
Fazia frio, era tão longe assim o que estava perto, sentia-se nos dentes de batom,
Sentia-se no tártaro de vaidade, à distância de duas portas batidas e alguma roupa
Desleixada a caminho do precipício ou da salvação, nunca saberemos,
Há sempre um táxi que nos salva da dor delico-doce das memórias que podíamos amargar,
Assim azedamos nos passos que engolimos, mais um pontapé ao lado do miocárdio,
Mais um adiar aquilo de que se abriu a mão no mar alto e por sorte
Um dia um tropeço na praia, ou uma areia no olho num dia de vento
Quando já mais não sopre na vida e tudo um acender de velas pela fome
Que não matamos e nos matou um pouco mais, a nós que já morremos tanto.

Turku

02.06.2017


João Bosco da Silva
Mão De Terra

Dava-te um destes dias, já que os arrasto pela madrugada como bêbados indesejados
E a vontade é de os deixar atrás de um caixote do lixo, com mais conteúdo de certeza,
Dava-te mais umas horas, das que gasto a gastar a paciência a roer os vidros da janela
Com os olhos à procura de uma vontade que me abra a porta e me leve para vida, carne,
Verdade, ando cansado de pintar sorrisos em olhos que só esperam terra, ando cansado,
Cansado do calor que o Sol promete mas a pele nem sente, cansado dos amigos que passam
Os dias só nas minhas saudades, cansado até do cansaço, nem força para mais uma desilusão,
Nem dentes para mais uma dentada de fome num mexilhão brindado com areia
A fazer de pérola, às vezes uma música como um tropeço desperta um sonho
Ou uma memória, às vezes alguém diz que isto lhe passa pelos olhos e até me sinto poeta,
Não como quando comecei a tropeçar em versos, isso já vai nos castanheiros que arderam,
Nos livros que acumulam pó pela fé, o Sol promete-se há horas no horizonte
E tu já te deixaste de madrugadas, dava-te este dia, sabes, este e muitos outros,
Tu ao menos tinhas fome, mas dá deus vida só a quem não a sente.

02.06.2017

Turku


João Bosco da Silva