quarta-feira, 9 de julho de 2014



David Cronenberg E Rãs Transmutantes

Foi preciso um sonho para compreender a tua coisa por sapos, Panero, apesar
De não ter percebido a transpiração irónica do recalcamento, depois de ter
Assassinado uma chinesa velha num salão de ópio, e sentir aquela culpa que é medo
E ao mesmo tempo desejo de ser apanhado, ao estilo de Raskolnikov, se te dissessem
Que doze anos passavam e tu ficavam quase na mesma, esmagado por tudo o que
Entretanto deixaste para trás e te faz, mesmo que passado, não foram sapos,
Mas foram rãs, que não são o mesmo, não repugnam todos, tem algo de erótico
Na silhueta e na forma como estão húmidas, não fosse o sangue frio,
À beira de um rio que apesar de não o ser, em Portugal, a erva alta, mas fresca
Como nos Verões nórdicos, e rãs armadas em gatos pretos, atravessando um caminho
Sem destino, ao lado do rio, o rio sim, o mesmo onde o velho e o peixe, há doze anos,
Quando te armavas em Bandini de dezoito anos aos dezasseis, centenas de rãs,
De todos os tamanhos, de pernas bem torneadas em todo o comprimento no ar,
Cruzando o teu espaço à distância temporal de um passo, um deslumbramento quântico,
Num entardecer de floresta com o Sol ainda violento entre as folhas e a promessa
De uma Lua vermelha, ou amarela, as rãs, verdes, amarelas, verdes e amarelas, azuis,
Vermelhas, todas apetitosas, estranhamente apetitosas e repugnadas pela
Minha intromissão no meu próprio sonho, cogumelos venenosos nos olhos,
Já a velha chinesa esquecida, nunca aconteceu, não nesta linha electroencefalográfica,
Foi um sonho, isto sim, é, o reflexo demasiado distorcido de um dia abusado pelo excesso
Dos olhos pela carne, ou da carne pelos olhos, numa clareira, uma exposição de raras rãs,
Enormes, homúnculos em frascos e redomas de vidro, rãs transmutantes, subitamente
Todas elas brinquedos antigos, a sorrir para um baú de sonhos partidos e esquecidos
Debaixo de tanta página arrancada à vida, ao ler a descrição da espécie, lembrei-me
De uma vez ver num Domingo de manhã, depois dos desenhos animados, uma ave
Que reproduzia todos os sons que ouvia, mesmo  os artificiais, uma máquina fotográfica
Por exemplo, fez-se noite e tudo se tornou dentro, num divã, num quarto pequeno e escuro
Em Moledo, a tornar-se grande à medida que a escuridão crescia, e o medo, a morte,
A velha chinesa de volta, o medo tão grande, tão pesado quanto o vazio, asfixiante,
Tem que se acordar para respirar, inspirar fundo o fumo tóxico da realidade
Para lavar as cirvunvoluções do excesso de serotonina e da culpa por defeito.

Turku

09.07.2014


João Bosco da Silva

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