segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

 



Podia descrever-te o que se esconde

No fino pó dos templos xintoístas,

Os segredos que só o sol à meia noite

Revela através da limpa água doce,

Mas os factos são de quem não os leva

E os bolsos fartos de tudo o que não se é,

Contar-te as contas uma a uma,

Saídas do teu mais oculto suspiro,

Reservado apenas ao vício dos desconhecidos,

Deixa-te cair e saberás que a verdade da vertigem

Não passa de uma linha fina como a morte,

Um segundo para a eternidade,

Deixa-te cair nas revelações simples,

Não temas o que os olhos fechados te revelam.

 

Turku

 

29.12.2025

 

João Bosco da Silva


domingo, 28 de dezembro de 2025

 


Ontem à noite podias ter dito

Que te despedias de mim,

Uma foda dada a medo e à pressa,

Antes dos matraquilhos e as minis,

Como podes esperar que te leve comigo

Para o estrangeiro ou mais além de mim

E te lembre após duas aparições imaculadas,

Tão parecidas comigo e com o que de ti

Queria, esquecendo o cornudo

Que dentro de mim os injectou,

Que digo eu, ainda agora me despedi

E já me arrependo de tudo,

O pequeno prazer de aldeões profundos,

Olhando-me como se olham pinheiros

Nascendo das fendas das fragas de granito,

Que inevitavelmente morrerão,

Sem espaço para um poema após anos e anos.

 

Kaskinen

 

25.12.2025

 

João Bosco da Silva

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

 



Que é do pó dos caminhos de Agosto,

Agora que tudo brilha uma geada lunar

E eterna, continuará tudo a ser o que nunca foi,

Nas couves umas pérolas breves, promessas

De amor, beijos que o sol matinal revela

Como fedorentas verdades,

São ecos as rãs que coaxam nos olhos fechados

Do cansaço, eram mais fáceis os sonhos

E o ouro encontrava-se em cada virilha,

Quantos corpos se cobriram com a fertilidade

Da terra escura, estrumam-se os sentidos

Com poesias alheias e pendente fica,

Como um fuso, o próximo delírio narrativo,

Sempre longe daqueles espaços

No caminho até ao horizonte de futuros hojes.

 

Kaskinen

 

23.12.2025

 

João Bosco da Silva

 


Escondes-te do Passado

 

Escondes-te do passado com uma vergonha

De boca cheia de luar e a promessa do pó

Do largo da feira, escondes-te do passado

Como as crianças que desaparecem

Quando fecham os olhos e ali estão

Numa graça ridícula em silêncio,

É melhor que engulas essa vergonha toda,

Deixa torna-la no que tu deixarás de ser,

Um início de primavera à beira do rio,

Um murmúrio viscoso, uma agilidade de rã,

Um aniversário dentro de outro,

Nunca consumamos uma despedida

Purificadora de chamas, engole e orgulha-te

Do desembaraço da tua juventude

Nos meus olhos distantes.

 

Turku

 

20.12.2025

 

João Bosco da Silva

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025


 

Capas de Estudantes

 

Era assim que escrevia no início,

Uma folha A4 branca,

Sobre a mesa da cozinha,

A janela em frente,

Montes e saudades distantes

De um futuro desconhecido,

Assim, como quem estende no chão,

A capa de estudante de Coimbra,

E de joelhos sobre ela, pede,

Vem-te, vem-te muito,

E depois, aos poucos escorria dela

E pingava, umas manchas

Sobre uma capa que dizem,

Não se pode lavar nunca.

 

Turku

 

18.12.2025

 

João Bosco da Silva

terça-feira, 2 de dezembro de 2025


Boca Cheia

 

Noites perdidas no sono inconsolável

De nostalgias inúteis como as folhas

Apodrecidas aos pés de nórdicos gigantes

Hibernados numa longa noite sem recreio,

Vira o disco e toca o mesmo cinzento

Denso que um dia inspirava liberdades

Mais abertas que ceder à verdadeira vontade,

As restrições de mão na porta

E outra na carne que se rouba por despeito

Numa oração de murmúrios viscosos

À perdição de uma alma que nunca

Nos foi verdadeiramente limpa,

Cair por fim despejado nas saudades

De um pó quase dourado de uma familiar

Encruzilhada rodeada de figueiras oliveiras videiras,

A esta distância o verão parece a impossibilidade

Da juventude e engolem-se remorsos

Como sonhos mãos vazias desejos inapagáveis.

 

Turku

 

02.12.2025

 

João Bosco da Silva