sábado, 19 de junho de 2010


Aquele Homem Que Viu

Não interessa! Não interessa mesmo, agora só infinito
E nada, porque tem que ser e afinal estava certo.
Ele o saberá, ele já o previa, ele já não sabe nada,
Não fosse o papel marcado pelo brilho das suas sinapses,
Que ainda nos ilumina a cegueira.
Aprendemos alguma coisa? Não?
Só nos resta ressuscitar o que ficou escrito, ouvir as palavras mudas,
Chorar lágrimas inúteis, gritar ao deus surdo, cego e mudo,
Aquele que alguém inventou para vendar a dor dos olhos,
Para enganar a humanidade garota, agarrada a tradições de garrafa de refrigerante.
Não interessa, agora nem o branco leitoso, agora só a escuridão que ninguém vê.
Quem dará voz ao mortos, quando deus nunca nos criou?
Quem fará do povo um, pelo oceano fora, quem irá agora fazer a autópsia do povo vivo?
Fecham-se os olhos, não se calam palavras de quem viveu de olhos abertos,
Por isso não interessa. Não interessa! Só a prova de que afinal estava certo,
Por isso não saberá que estava certo.
Dói, dói mesmo, mas isso só aos que cá ficam,
Sujeitos a analgésicos ridículos de almas fracas e finitas,
Com ilusões de eternidade.
A carta lá estava em cima da mesa e neste dia, muita gente morreu,
Muita gente quando uma só se resignou à vontade do coração cansado.
Foi esta a última viagem, mas não interessa,
Foi única e gloriosa. Quem não acordou é porque nunca nasceu de verdade.
Resta ter pena, resta sentir que algo nunca mais,
Algo em nós menos e palavras que ficam, como ecos de uma vida merecida,
Que nem a morte calará, essa filha da puta que tem a mania do silêncio.
O nome?Não interessa! O homem cá esteve, entrou em nós
E tristes dos que só são tocados pelos nomes. Nomes não morrem,
São frios e repetem-se. Não interessa, agora, neste momento,
Sei que a razão disto tudo foi por sonhos de loucos.
A morte não interessa! Espera-nos a todos, mas nem todos vivemos acordados.
Dorme bem, ó Grande! Dorme bem que agora és do tamanho da eternidade
Debaixo da vida que plantaste em folhas verdes.

19.06.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

2 comentários:

  1. Português, esta noite sonhei contigo.

    Estavamos em Savonlinna.
    Não havia neve mas estava frio.
    E íamos juntos para o Hospital, a pé.

    Tenciono voltar :)

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