O cisne continua
Das folhas secas
floresce uma hepática —
racho lenha.
Ela dorme —
perdi conta
aos barcos que passam.
Ignorando olhares
o cisne continua
o seu trabalho.
Acende-se o musgo
sobre o silêncio
de granito.
Nada prometem
as nuvens
avisam apenas.
És montanha
nos teus olhos
de mar.
Racha-se melhor
sem um moleskine
no bolso.
Da janela as árvores
dançam ao vento
da tempestade.
Na flictena da mão
a inocência silenciosa
da machada.
Passam os barcos
o vento
continua.
Chuva de granizo
sem luz
assa-se a carne.
Enquanto acendo
a velha sauna
aqueço-me com Shiki.
Num cedro próximo
o canto da rola —
manhã de primavera.
Uma árvore cai
olhos fecham
o mundo continua.
Estearina e fumo
cheiros do sagrado
da infância.
Nos olhos da menina
flutua um cisne
no Báltico primaveril.
Os juncos do verão passado
já esqueceram
o peso do gelo.
Arquipélago de Pargas, 04/2026
