segunda-feira, 27 de abril de 2026

 


O cisne continua

 

Das folhas secas

floresce uma hepática ­­­—

racho lenha.

 

Ela dorme ­—

perdi conta

aos barcos que passam.

 

Ignorando olhares

o cisne continua

o seu trabalho.

 

Acende-se o musgo

sobre o silêncio

de granito.

 

Nada prometem

as nuvens

avisam apenas.

 

És montanha

nos teus olhos

de mar.

 

Racha-se melhor

sem um moleskine

no bolso.

 

Da janela as árvores

dançam ao vento

da tempestade.

 

Na flictena da mão

a inocência silenciosa

da machada.

 

Passam os barcos

o vento

continua.

 

Chuva de granizo

sem luz

assa-se a carne.

 

Enquanto acendo

a velha sauna

aqueço-me com Shiki.

 

Num cedro próximo

o canto da rola —

manhã de primavera.

 

Uma árvore cai

olhos fecham

o mundo continua.

 

Estearina e fumo

cheiros do sagrado

da infância.

 

Nos olhos da menina

flutua um cisne

no Báltico primaveril.

 

Os juncos do verão passado

já esqueceram

o peso do gelo.

 

Arquipélago de Pargas, 04/2026

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