quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

 


Big Bang

 

Pedes-me uma folha em branco,

Despejas os lápis de cera e os marcadores

Sobre a mesa, pegas no marcador cor de laranja

E dizes que é uma cor boa para o sol,

Na página em branco surgem

Círculos e espirais de todas as cores,

O sol da manhã ilumina-te através da janela,

E, enquanto presencio o teu acto criador,

Dou-me conta de estar a testemunhar a origem

Dum universo, um Big Bang divino de silêncio

E luz, estrelas, flores e borboletas.

 

24.02.2026

 

Turku

 

João Bosco da Silva

 


Saturday Night e Cadillacs and Dinosaurs

 

A felicidade era, na altura, coisa de cinquenta escudos

Para ir jogar Cadillacs and Dinosaurs

Com a filha do colega do meu pai,

Era uma victória passarmos do primeiro nível

E acordar seco naqueles colchões finos

Das tendas do parque de campismo da Costa da Caparica,

A música favorita, passava várias vezes ao dia,

Ora no rádio do parque ora no dos vizinhos,

Gostava do ritmo, a letra, podia dizer o que dissesse,

A satisfação era a mesma, Saturday Night de Whighfield,

Décadas depois, quando ouço essa mesma música,

Sinto-me menos estranho, apesar das temperaturas negativas,

Num ambiente de filme de Natal,

Vejo-a com as calças de ganga e as sapatilhas converse,

À minha espera para irmos jogar arcade,

Nada mais fácil do que uma viagem no tempo,

Virar a cassete e meter a fita a correr,

Fechar os olhos um momento e deixar o cérebro

Ser banhado nas zonas poeirentas, por uma avalanche de luz.

 

24.02.2026

 

Turku

 

João Bosco da Silva

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

 


Hoje

 

Passado algum tempo, o ruído da obstipação,

Torna-se naquilo que é, nada mais se cria,

Demasiada variedade mal digerida,

É um bombardeamento constante,

Mal se consegue respirar entre uma onda e outra,

É uma máquina de lavar interminável,

Em apneia vamos vivendo como se não respirar

Fosse a nova normalidade, contudo

Exigem sorrisos e produtividade ao máximo,

Dar o litro por amor à camisola,

Sem sacrifícios humanos, não se constroem impérios.

 

11.02.2026

 

Turku

 

João Bosco da Silva


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026




Lua e Morcego

 

Quando aponto para a Lua e te digo,

Olha que grande, tu logo,

Na tua língua, morcego, morcego grande,

Não dizes Lua, nem Kuu,

Mas morcego,

Sei que nunca viste um morcego,

Além de uma ilustração infantil,

Não como os que capturávamos

Na igreja e eventualmente

Morriam quando os soltávamos em casa,

Sem espaço para se orientarem,

Escavávamos depois em fragas de granito

Pequenas covas, como túmulos neolíticos

Ou medievais, onde cabiam

Uma pequena caixa de fósforos

E dentro o delicado corpo do morcego,

Aos teus olhos a Lua também cabe

Numa caixa de fósforos e estás tão certa,

Porque é que a Lua é Lua e não morcego

Ou outra palavra qualquer,

As palavras têm ainda para ti

O peso e a agilidade das asas de um morcego.

 

03.02.2026

 

Comboio (Helsínquia-Turku)

 

João Bosco da Silva

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

 


Almoço

 

Enquanto comes, meu amor,

Desse teu jeito calculado,

Vejo o mundo em que te tornaste,

De uma promessa em bruto,

Aos poucos te revelas tu,

E dou-me conta que o amor mais puro,

É amar quem se vai conhecendo,

Lentamente, uma palavra de cada vez,

Uma cor que ora se erra,

Ora se acerta, os números

Que primeiro cantados, aos poucos,

Uns dedos no ar,

O sol de Inverno ilumina-te os olhos verdes,

Enquanto, uma a uma,

Molhas as batatas fritas

Na gema do ovo estrelado,

Como eu faço ainda,

Estendes-me então a mão

E pedes-me, em finlandês,

Canta comigo papá.

 

02/02/2026

 

Turku

 

João Bosco da Silva