segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012



Que Esperar De Um Poeta De Província

Que esperar de um poeta de província, um versejador que se esquece de rimar,
Com recordações doces como torradas feitas na lareira entre os potes da avó,
Com açúcar grosso, com medos antigos a preservativos e o que diria deus
Desde o quadro da sala, com o seu olhar hipnótico, se visse que roubamos um
Ao tio para ver como era, e a muros de cemitério que obrigam a um sinal da cruz
Compulsivo, recordações de fogueiras enormes no inverno onde se queima
O esquecimento e o diabo, e as estrelas agradecem a companhia das faúlhas
Que o som dos bombos elevam, ébrios, repetitivos, uma imitação de miocárdio,
Anos após ano à espera dos verões tão curtos, dos amigos que um dia serão
Apenas uma parte de nós que dói como se uma hipoxia, tantos cães mortos,
E os grilos esmagados entre duas pedras de um muro do lameiro do avô,
Assassino sem crueldade, enquanto as vacas pastavam os pensamentos
De ressacas futuras à sombra ainda fina das macieiras, todos os familiares que nasceram
Connosco, ainda vivos e a morte polpa de grilos, rãs secas ao sol, a pele
De uma raposa esticada entre quatro ou cinco pregos enquanto varejeiras
Lhe cantam o vazio numa vibração metálica, os presuntos estragam-se
E nenhum deles ficou por comer por causa de um mau verso escrito pela
Confusão adolescente, pela vontade de pertencer a um mundo que a consciência
Levou, e tudo ficou tão solitário aquém da pedra antes de ser lançada ao rio,
Os dedos tão grandes, tão estranhos, tão capazes de tocar o mundo e de o
Manter além da pele, uma quadra, duas quadras, três quadras e uma inspiração
Profunda quando o poema acabado, uma felicidade serena, um reencontro com
O silêncio das tardes sem segundos, sem tempo, com brinquedos imaginários
E a companhia do melhor amigo da infância, que era mais uma extensão do eu,
Mas com outro nome, outros pais e pouco se pode esperar de um provinciano,
Com sonhos que lhe foram emprestando, quando a serra deixou de ser o limite
Do horizonte e o mundo cresceu em tamanho, perdeu a lucidez e tornou-se mortal,
Definiu os seu limites, uma pedra entre dois dedos de vontade ao alcance
De uma fome por respostas que se procuram em mais perguntas,
Páginas e páginas de incerteza que se oferece em troca do alívio, do reconhecimento
Anónimo do silêncio, a mesma fome desde a idade da pedra, que fez alguém
Pintar a sua mão numa gruta escura, aqui esteve gente, na esperança
Que a afirmação da existência pudesse justificar o que nos separa do universo,
Por isso quando os anos tornam a presença do que somos tão pesada,
Se procura o alívio das cervejas apressadas na companhia dos que sabem o nosso
Nome, dos que não têm dúvidas de que somos, não fazendo ideia do quê,
Até a aguardente achar que é a sua vez de rasgar a noite vertendo a escuridão
Na chávena de um café provinciano, até o sabor da monotonia se confundir com
O da eternidade, não se pode esperar mais de um poeta de província, além de uma palma
De incerteza aberta numa parede branca, uma pegada na areia que as ondas apagam.

06.02.2012

Turku

João Bosco da Silva

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