A Outros Avós
para o Marco,
Não range mais aquele soalho, a vida é mais curta que umas tábuas,
Descola-se mais rápido que um papel de parede, e nós que somos eternos,
Porque jovens, já começamos a olhar para o número que temos na mão,
Sabíamos que não eram eternos, mas será que sabíamos mesmo,
Enquanto passávamos carradas de gel na cabeça para impressionar
As filhas dos vizinhos, mesmo de Inverno a geada empalidecia,
Despacha-te lá que o rapaz está à espera, na verdade tinha tempo,
Sentado em frente ao aquecedor a gás, naquela bela sala,
A discutir coisas que realmente não percebia, comentando quão mal ia o mundo,
Segundo o que a televisão nos cuspia, fazia o papel de bom rapaz,
Até o era na verdade, pelo menos aos seus olhos, apesar de também
Montes de gel na cabeça e o cabelo demasiado comprido,
Nunca mais voltarei a subir aquelas escadas de madeira,
Sentar-me-ei, um dia que possa, nas de pedra, lá fora,
Porque essas ao menos não nos dão a ilusão da eternidade,
Tenho pena deles amigo, sinto que falhamos, devíamos ter continuado
A usar muito gel no cabelo, deixar a barba por vir, não crescer,
Devíamos ter-lhes dado mais tempo, quando éramos seus donos.
Turku
31.01.2019
João Bosco da Silva
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