quinta-feira, 5 de março de 2026

 


A Morte de António Lobo Antunes

 

Não há boa altura para morrer,

Mas a pior deve ser mesmo antes

Da chegada da primavera,

Comecei a ler Lobo Antunes há quase

Vinte anos, mudou completamente

A forma como escrevia poesia,

Levei-o de autocarro comigo em invernos

Inimagináveis que só a juventude aguenta,

Entre Savonlinna e Rantasalmi,

Foi quem me acompanhou nas Tuskers

No centro de Nairobi, e vidas mais tarde,

À beira da piscina em Canggu,

Quando me sentia bloqueado,

Ele sempre me trouxe de volta a fúria,

Uma vez fiquei num hotel perto do seu tasco

Favorito em Lisboa, na ocasião de apresentação

De um dos meus livros, nunca o vi,

Não foi preciso, tenho-o comigo, sempre.

 

Turku

 

05.03.2026

 

João Bosco da Silva

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

 


Big Bang

 

Pedes-me uma folha em branco,

Despejas os lápis de cera e os marcadores

Sobre a mesa, pegas no marcador cor de laranja

E dizes que é uma cor boa para o sol,

Na página em branco surgem

Círculos e espirais de todas as cores,

O sol da manhã ilumina-te através da janela,

E, enquanto presencio o teu acto criador,

Dou-me conta de estar a testemunhar a origem

Dum universo, um Big Bang divino de silêncio

E luz, estrelas, flores e borboletas.

 

24.02.2026

 

Turku

 

João Bosco da Silva

 


Saturday Night e Cadillacs and Dinosaurs

 

A felicidade era, na altura, coisa de cinquenta escudos

Para ir jogar Cadillacs and Dinosaurs

Com a filha do colega do meu pai,

Era uma victória passarmos do primeiro nível

E acordar seco naqueles colchões finos

Das tendas do parque de campismo da Costa da Caparica,

A música favorita, passava várias vezes ao dia,

Ora no rádio do parque ora no dos vizinhos,

Gostava do ritmo, a letra, podia dizer o que dissesse,

A satisfação era a mesma, Saturday Night de Whighfield,

Décadas depois, quando ouço essa mesma música,

Sinto-me menos estranho, apesar das temperaturas negativas,

Num ambiente de filme de Natal,

Vejo-a com as calças de ganga e as sapatilhas converse,

À minha espera para irmos jogar arcade,

Nada mais fácil do que uma viagem no tempo,

Virar a cassete e meter a fita a correr,

Fechar os olhos um momento e deixar o cérebro

Ser banhado nas zonas poeirentas, por uma avalanche de luz.

 

24.02.2026

 

Turku

 

João Bosco da Silva

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

 


Hoje

 

Passado algum tempo, o ruído da obstipação,

Torna-se naquilo que é, nada mais se cria,

Demasiada variedade mal digerida,

É um bombardeamento constante,

Mal se consegue respirar entre uma onda e outra,

É uma máquina de lavar interminável,

Em apneia vamos vivendo como se não respirar

Fosse a nova normalidade, contudo

Exigem sorrisos e produtividade ao máximo,

Dar o litro por amor à camisola,

Sem sacrifícios humanos, não se constroem impérios.

 

11.02.2026

 

Turku

 

João Bosco da Silva


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026




Lua e Morcego

 

Quando aponto para a Lua e te digo,

Olha que grande, tu logo,

Na tua língua, morcego, morcego grande,

Não dizes Lua, nem Kuu,

Mas morcego,

Sei que nunca viste um morcego,

Além de uma ilustração infantil,

Não como os que capturávamos

Na igreja e eventualmente

Morriam quando os soltávamos em casa,

Sem espaço para se orientarem,

Escavávamos depois em fragas de granito

Pequenas covas, como túmulos neolíticos

Ou medievais, onde cabiam

Uma pequena caixa de fósforos

E dentro o delicado corpo do morcego,

Aos teus olhos a Lua também cabe

Numa caixa de fósforos e estás tão certa,

Porque é que a Lua é Lua e não morcego

Ou outra palavra qualquer,

As palavras têm ainda para ti

O peso e a agilidade das asas de um morcego.

 

03.02.2026

 

Comboio (Helsínquia-Turku)

 

João Bosco da Silva

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

 


Almoço

 

Enquanto comes, meu amor,

Desse teu jeito calculado,

Vejo o mundo em que te tornaste,

De uma promessa em bruto,

Aos poucos te revelas tu,

E dou-me conta que o amor mais puro,

É amar quem se vai conhecendo,

Lentamente, uma palavra de cada vez,

Uma cor que ora se erra,

Ora se acerta, os números

Que primeiro cantados, aos poucos,

Uns dedos no ar,

O sol de Inverno ilumina-te os olhos verdes,

Enquanto, uma a uma,

Molhas as batatas fritas

Na gema do ovo estrelado,

Como eu faço ainda,

Estendes-me então a mão

E pedes-me, em finlandês,

Canta comigo papá.

 

02/02/2026

 

Turku

 

João Bosco da Silva

 

 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

 




Contar Carneirinhos

 

Às vezes, quando a noite tem o peso do mundo

E cansaço encosta a insónia ao futon,

Prometendo-lhe medos maiores, revoltas silenciosas,

A caixa de pandora fechada ao lado, insuportável,

Não conto carneirinhos, tento lembra-me,

Um por um, não dos nomes, mas dos corpos

Onde me deixei ser todo eu, vertendo futuros,

Promessas obvias na derrota, até que me perco,

Ou na areia daquela praia à noite em Tenerife,

Nos lençóis duvidosos naquele barco desde Estocolmo,

Na casa de banho dum bar, doutro bar,

Até que as contas espalhadas pelo chão,

O colar apertado enfim quebrado,

E o corpo só, finalmente, se deixa diluir quente,

Em lençóis de mercúrio, Caronte ou Morfeu,

Um barco sobre um banco de areia movediça.

 

30.01.2026

 

Turku

 

João Bosco da Silva

 


 


No Comboio com Shiki

 

Tenho separado bivalves como quem procura

Um fôlego que não chega,

As pestanas fecham-se no arrependimento,

As manhãs são secas e duras,

O chão a verdade mais doce dos limites

A que os pés chegaram,

O mais difícil em envelhecer é assumir,

O pior de envelhecer é deixar-se ser,

Mas nada deixa cair o que os anos

Deixaram agarrado aos dedos

Que enrugam noites fora,

Dentro e fora de humidades alheias,

A juventude dá-se com a facilidade da fome,

Hoje sou só eu, sentado e longínquo,

Uma memória em forma de promessa

Que ficou por cumprir,

Acaba tudo em mais do mesmo,

Uma borboleta, mais uma,

Contra um vendaval de esquecimento.

 

Comboio (Turku-Helsínquia)

 

13.01.2026

 

João Bosco da Silva

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

 


Calígula

 

Todas as manhãs ao acordar consulto os oráculos obscuros,

Já terá morrido o Calígula, em que apocalipse já vamos,

O ar pesa pelo dia fora, apesar do céu limpo

E da coragem dos pássaros no cabo daquele poste,

Mas os oráculos revelam a cada novo dia mais uma loucura

Deste deus que não perde por esperar a afiada lâmina

Da guarda pretoriana, podre, cagão, um pedaço de delirante

Merda, uma grandeza de retrete com fatos esquecidos

Num armário ideológico desde os anos oitenta,

Quem alimenta a divindade destes deuses flatulentos,

Milhões de zombies obedientes, metade de um país

Que é um barril de pólvora, sedento de sangue irmão,

Já morreram impérios por menos, que seja este mais um

A implodir com o peso da sua fome imperialista,

O elástico cada vez mais longe, mais fino,

Acordo todas as manhãs com uma pedra no sapato,

O mãozinhas-pequenas, imperador dos idiotas,

Adia, adia e distrai, mas toda a gente sabe,

A história repete-se, as lâminas afiam-se e esperam o cansaço

Do senado, que se encerre a cena antes da civilização.

 

13.01.2026

 

Comboio (Helsínquia-Turku)

 

João Bosco da Silva

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

 


Crónica da Raia

 

Já naquele tempo eram muitas as ruínas

Caminho abaixo até ao rio Trancoso,

As silvas cobriam misteriosos passados,

Moinhos abandonados, pequenas casas

Vazias onde ecos de famílias inteiras,

Pareciam-me os eucaliptos mais evidentes,

A Espanha um reflexo do outro lado do rio,

Mais nítido com um sotaque mais miudinho,

De onde vinham os iogurtes, as baguetes

E o fiambre que dava pratos,

Acabava o tempo dos contrabandistas,

O último, lembro-me, ainda conseguiu

Trazer da Espanha um paralelo de granito

Do tamanho da sua bebedeira e da solidão.

 

Turku

 

06.01.2026

 

João Bosco da Silva